Clínica-Escola: Perguntas e Respostas sobre a clínica psicanalítica no mundo globalizado

1. Para que tipo de pessoa a psicanálise é indicada?

A psicanálise é indicada para todas as pessoas que têm uma demanda ou questão. Uma demanda é algo que se apresenta como um enigma pessoal, algo que não vai bem, alguma coisa que surge e que precisa de uma saída que não se consegue encontrar sozinho. Normalmente, diante de problemas e angústias, as pessoas reagem utilizando-se de comportamentos e padrões de sofrimento, se colocando em um lugar de aceitação ou de resignação deste estado. Por exemplo, frente a uma grande cobrança de trabalho, pode-se ficar estressado. Frente à perda de alguém querido, pode-se ter baixa estima e desânimo. A psicanálise é para aqueles que procuram uma nova maneira de lidar com os impasses pessoais que não seja a resignação no sofrimento.

2. Como funciona o tratamento psicanalítico?

O trabalho do analista consiste em, frente à demanda de cada analisando, proporcionar a invenção de uma saída  para além dos padrões fixos de sofrimento. A cada sessão, os analisandos são desautorizados do lugar de resignação no sofrimento, promovendo-se soluções criativas.

3. Qual a diferença entre tratamento psiquiátrico, psicoterápico e psicanalítico?

A psiquiatria e as psicoterapias trabalham com a noção de que existem pensamentos e comportamentos que estão alterados em relação a um padrão de normalidade. O objetivo das mesmas é fazer com que a pessoas possam encontrar ou se aproximar da normalidade definida. Em um primeiro momento, se faz um diagnóstico, no qual as queixas apresentadas pelo paciente são classificadas dentro categorias gerais, pré-estabelecidas, de doenças ou transtornos mentais. Depois, como tratamento, a psiquiatria tem se valido principalmente de medicamentos ou outras intervenções de modelo biológico. As psicoterapias buscam garantir uma conduta adequada através de um tratamento por palavras que permita aos pacientes corrigir pensamentos e comportamentos alterados. Em ambas intervenções tanto os diagnósticos quanto os tratamentos são definidos individualmente, mas tendo como base modelos gerais estabelecidos a partir de pesquisas com o maior número possível de pessoas. As duas formas de tratamento se apóiam na idéia de que os problemas apresentados são devidos a alterações  na biologia corporal e ou ao aprendizado de formas de pensar e se comportar inadequadas. Nos dois casos, a pessoa acometida não tem responsabilidade pelo o seu sofrimento. A responsabilidade, quando existe, é em relação ao correto seguimento do tratamento que lhe é indicado pelo psiquiatra ou pelo psicólogo.
A psicanálise trabalha com a possibilidade de que cada pessoa constrói , a partir de padrões oferecidos pelo mundo, formas particulares de repostas aos impasses ou angústias da vida. Estas tendem a fixar o paciente em um lugar de sofrimento. Na psicanálise, não existem modelos de normalidade a serem buscados, nem   modelos de tratamentos pré-definidos, mas, caso a caso, na presença do analista, o analisando deve abandonar a fixação nas respostas já prontas e procurar inventar alternativas de lidar com a sua dor, se responsabilizando por isto. A pesquisa na psicanálise se baseia no relato singular de cada caso tratado.

4. Estou fazendo uso de remédios psiquiátricos. Posso, também, fazer acompanhamento psicanalítico?

Para ser acompanhado por um analista basta ter uma demanda para isto, conforme definido na pergunta de número 1. O fato de estar usando medicamentos psiquiátricos ao mesmo tempo é da responsabilidade da pessoa e de seu médico. O analista pode discutir o uso com os dois.

5. Quanto tempo demora um tratamento com psicanálise? Ele custa muito caro?

Não existe um tempo pré-definido para uma análise. Ela pode durar de uma a várias sessões. O objetivo é que ela dure o menor tempo possível.  Este tempo é  o necessário para a invenção de uma saída para a demanda inicial apresentada. Se não houver a construção de uma nova demanda, o acompanhamento termina aí. Hoje, análises com longa duração têm sido realizadas por pessoas com a demanda de se tornarem analistas.
O valor de uma análise é estabelecido entre o analista e o analisando. O analisando deve dizer quanto acha que sua análise vale, qual o valor da análise que ele quer receber. Havendo acordo com o analista, o valor fica aí definido.

6. Por que não posso fazer minha análise sozinho? Por que preciso de um analista?

Frente aos impasses encontrados no dia-a-dia, as pessoas tendem a responder com os padrões de sofrimento já estabelecidos, conforme esclarecido nas perguntas anteriores. Sozinhos ou mesmo com amigos e familiares, as pessoas acabam por repetir e reafirmar estes lugares, através de um sentimento de compaixão. Por exemplo, uma pessoa estressada pode começar a tomar “calmantes”. As pessoas ao seu redor, por sua vez, começam a evitar trazer problemas ou ter outras atitudes que julguem aumentar o estresse do “coitado”. Estes dois comportamentos só ajudam a fixar a pessoa no lugar de estressada. A mesma “veste a roupa” de coitada, de vítima, e não se responsabiliza pelo seu sofrimento. A formação de um analista deve permitir que ele seja capaz de estabelecer e conduzir uma análise de forma a  responsabilizar o analisando pelo seu sofrimento, provocando a invenção de saídas criativas. Soluções diferentes e originais em relação àquelas já prontas para serem usadas que o mundo fornece.

7. Como se avalia a eficácia de um acompanhamento com psicanálise?

Como não existem padrões de normalidade a serem buscados, cabe ao analista e ao analisando, depois de um tempo definido de análise, avaliar os resultados obtidos. Observam se houve uma mudança em relação à demanda inicial e, na dependência desta avaliação, estabelecem novas direções para o tratamento. Os resultados são sempre definidos caso a caso, de forma singular e assim são relatados para os estudos para a formação em psicanálise.

8. Desde a época de Freud, o mundo mudou muito. A psicanálise também mudou?

O mundo na época de Freud (final do século XIX, inicio do século XX) era estruturado a partir de uma organização hierárquica ou vertical (de cima para baixo) que colocava padrões comuns a serem seguidos. Tinha-se, de forma clara, o que era certo ou errado fazer, tendo como referência uma autoridade geral, como a religiosa. Diante de uma dúvida, dizia-se popularmente para se apelar ao bispo. Nas famílias, a autoridade era o pai, que estabelecia qual o modelo a seguir. Na teoria psicanalítica, esta mesma organização ficou definida como Complexo de Édipo. Frente ao mal-estar humano, à algo que não vai bem,  o tratamento era reforçar a função do pai. Para resolver os impasses procurava-se um saber que vinha do Outro. Era o famoso “ Freud explica”.
Nos mundo atual, chamado de globalizado, não temos mais a organização vertical da sociedade. Não existem mais padrões comuns a serem seguidos, nem uma autoridade ou saber último para chamar. As pessoas perderam o norte, encontrando-se “desbussoladas”. A própria estrutura familiar não é mais a mesma, existindo vários modelos de família. A psicanálise, neste novo cenário, tem se orientado através do conceito de Real, criado por Lacan. A função paterna não é capaz de recobrir totalmente o mal-estar, devendo o tratamento caminhar  para além do Complexo de Édipo, na direção de uma invenção permanente de respostas. Não há um Outro que nos explique, não podemos ter garantias últimas em nossas escolhas, mas devemos ser responsáveis por elas.

Marlio Vilela Nunes
São Paulo 20/09/07

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