ANGÚSTIA

O angu de caroço de cada dia nos dai hoje

Seja do seu pomar, seu próprio, o que colha, embora fruto...
(Domínio público)

Fruto da sociedade hipermoderna, o homem desbussolado apresenta, em si, as conseqüências do solo do qual advém. Em metáfora um pouco surreal, podemos afirmar que suas características influenciam no seu sabor, que passa a ser, predominantemente, o da angústia.

Assim, o homem desbussolado se caracteriza pela inapetência que grassa a sua relação com a vida. Surpreendentemente, só para dar um exemplo, podemos mencionar o quanto é desgostoso o executivo de sucesso, que não acha graça em absolutamente nada do que faz. Insosso espécime de homus desbussoladus, seja qual for o caminho escolhido, ele o trilha de maneira desprovida de paixão. Vive como se tudo fosse cinza, como se tudo fosse igual. Um outro exemplo dessa igualdade que elimina o brilho de viver é o modo de vestir empregado pelos jovens que enchem as salas de aula: apesar da abolição do uso de uniforme, o suposto “estilo” de cada um faz com que eles dêem a sinistra impressão de que são reaparição de uma mesma figura.

A angústia advém da combinação entre a ausência de parâmetros e da oferta de inúmeras opções. Vivemos em um tempo mix, em que estão disponíveis modelos para identificações plurais e contraditórias, uma vez que parece não haver mais um único significante mestre que oriente as pessoas. A gama variada de opções sugere que o grande Outro — que constituía, na organização social anterior, o modelo, imagem totalizadora que era a fonte de identificações — hoje se manifesta escangalhado, não existe como total. Conseqüentemente, todo o tempo, somos bombardeados com imperativos desencontrados.

Tomemos o momento da escolha profissional como exemplo. Nesse contexto, perguntas tais como “Que curso fazer?” seriam algozes do jovem desbussolado. A ele, não está aberta a solução cômoda de fazer aquele que seu pai, e, antes dele, seu avô, escolheu. Então, as questões se desdobram: “Qual escolher? O que o irmão mais velho fez? O que traria uma carreira de status? O curso totalmente novo, criado a fim de atender demandas do mercado no semestre em que se prestava vestibular?”. Cria-se, então, um estranho paradoxo: livre de uma direção determinada a seguir, o jovem permanece preso (e torturado) pela sua incapacidade de escolher entre o sem número de opções que se lhe apresentam.

A falta de coragem de se responsabilizar por uma entre as inúmeras possibilidades gera angústia. Como não sabe o que fazer com ela, o sujeito se paralisa, se imobiliza e limita-se à repetição. Incapaz de sopesar o que, antes, era descrito em termos de “ter vocação para algo”, ele tenta juntar cacos de informações aqui e ali para explicar uma escolha que, na essência, é inexplicável.

Como ajudar um amigo que se queixa por estar perdido? Em primeiro lugar, não fazendo parte de seu teatro, sustentado pela lei do esforço mínimo. Muitas vezes, podemos perceber que a pessoa que afirma estar angustiada para realizar determinada tarefa “dá a deixa” para que seus pares sejam “solidários” com ela, o que, na prática, significa solicitar apoio para não fazer o que deveria ter feito.

Como, então, ser um bom amigo? Entendendo, em primeiro lugar, que não servem para nada aqueles que “entendem a situação”; são bonzinhos; “compreensivos”. Os bonzinhos, na verdade, estão fazendo uma espécie de poupança-amigo para a sua futura “folga”. Ao amparar o angustiado, preparam o terreno para que, mais tarde, sejam “amparados” também. É o efeito dominó do mal17. Se a gente passa a mão na cabeça de quem se diz perdido, instaura-se uma ciranda cujo fundo musical pode ser Message personnel.18

Podemos ajudar o amigo desbussolado informando-o que existem saídas diante da angústia gerada pelo medo da escolha. Para encontrá-las, ele precisa ultrapassar a incapacidade de suportar a angústia. Deve olhar de frente o gozo sem medida que o vitima, evitar todo tipo de intoxicação. Precisa, também, ultrapassar a tentação de aderir às receitas que lhe são apresentadas como “bússolas” de comportamento aceitável e previsível para as diversas situações sociais.

Deve, intrepidamente, encarar como inimigos o acirramento do fundamentalismo, o crescimento religioso, a proliferação da mídia, o saudosismo do passado no qual se podia contar com parâmetros estabelecidos e, até certo ponto, imutáveis, servindo como direcionamento. Quer saber de uma coisa? Você, leitor, que tem um amigo nessa situação, olhe nos olhos dele e diga: pare de se agarrar a estas bobagens que não passam de uma segurança enganosa, ouse, saia do meio da multidão.

Se o fizer, você vai aprender que, para a angústia que corrói o fruto homem desbussolado, a mídia tende a apresentar-se como um catálogo de antídotos para o veneno da angústia, no qual, supostamente, cada pessoa poderia encontrar o que mais lhe fosse conveniente. No entanto, o consumo de idéias, de objetos e, mais especificamente, de soluções padronizadas tem como conseqüência o que se sabe que acontece nas lavouras onde há abuso de agrotóxicos: frutos com a falsa aparência de serem muito saudáveis, porém insossos e potencialmente tóxicos...

Acreditamos que poderemos, uns com os outros, abrir mão dos dispositivos elaborados e oferecidos pela sociedade de controle se formos capazes de inventar (cada um para si) uma norma ética que nos singularize, nos confira um estilo.

Combina com essa angústia que gesta a produção de novas coisas a música Aquela Coisa19 que, na interpretação de Raul Seixas, mexe com o corpo, mexe com as pessoas que a escutam.

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