DEPOIMENTO

CASO VERDADE  

 UMA JOVEM CONTA COMO ESTÁ SENDO O SEU PRIMEIRO BIMESTRE NO INSTITUTO DE PSICANÁLISE LACANIANA – IPLA

Andreza Roberta ROCHA

Acabei vindo parar no Instituto de Psicanálise Lacaniana - IPLA por ter testemunhado, bem de perto, certa alegria que contagia quem está ligado à psicanálise de uma maneira inevitável. Não é aquela coisa que a gente escreve em capa de caderno: “Podemos não servir de exemplo, mas podemos servir de lição”.

É como se pudéssemos servir de inspiração. Não de modelo, mas de “musa”. Musa a convidar, a mostrar aos outros — sem discursos, mas com a vida — que um outro jeito de ser e de viver é possível.

Neste primeiro bimestre, tenho aprendido algo que se repete em relação a muitas coisas da psicanálise: os efeitos do trabalho. Dialogando com a metáfora de “corpo de baile”, dançar bonito que nem a gente vê o Al Pacino em Perfume de Mulher não é mágica. É resultado de uma sintonia e de um reconhecimento do outro que não nasce do dia para a noite.

Estar no IPLA é um trabalho árduo. Estar em análise é árduo duas vezes. A gente paga e trabalha pra poder incluir em nossas vidas coisas que, às vezes, não são legais ou bonitas; que, muitas vezes, são até ridículas. Mas, se elas existem, eu persisto. Tenho bancado o preço de encará-las. Acho que esse é o primeiro passo pra decidir que cara quero dar a elas: a cara que quero dar a mim.

A formação extrapola, e muito, o tempo ou o dinheiro que a gente investe no Instituto (ou seria melhor dizer na gente?). O negócio afeta nosso corpo. Igualzinho quando se começa a aprender uma nova língua. As mudanças decorrentes da formação fazem com que a gente passe a fazer coisas estanhas, pois, muitas vezes escapam numa hora inesperada. Refiro-me, por exemplo, à palavra que a gente esquece na hora da prova, mas fala na hora de pedir pra alguém pegar uma coisa pra gente. Também, faz a gente estranhar muita coisa: comigo, por exemplo, tem coisas e pessoas que eu prezava muito, mas agora não suporto. O mais difícil mesmo, porém, tem sido o fato de que o que era normal passou a ser intolerável. Um outro exemplo: atraso. Na pauleira de fechar Sozinho com Tu, comecei a perceber que, ao contrário do que acontecia antes, se eu disse que chegaria às 8h00, 8h00 são 8h00. E não oito e quinze.

Tem o trânsito, eu sei. Mas tem o fato de que NÃO sou burra e sei calcular o tempo. Acima de tudo, tem o fato de que o trabalho e esforço de meu colega de Corpo conta. Aprendi a honrá-lo, não deixá-lo na mão... Quando o outro conta com a gente de algum modo, não há desculpa, há ação. Ação essa que, sem qualquer esforço deliberado, é calculada no que tange aos seus efeitos.

De repente, parece que na testa da gente nasceu uma antena de barata. É o máximo a minha antena! Ela detecta as coisas e seleciona se quer ou não uma pessoa ou situação em nossa vida antes que o meu cérebro pense. De posse dessa antena mágica, a gente passa a sacar mais rápido quando a ação é ação mesmo ou quando parece que é, mas é só enrolação. Salta aos nossos olhos o email que teoricamente respondia uma pergunta, mas não dizia nada; a pessoa que diz que trabalha pra caramba, mas deve fazê-lo com tinta invisível, já que não se vê o produto; o homem que diz que ama, mas não comparece quando berra o desejo de uma mulher... Com essas coisas todas saltadas na nossa frente, a gente decide rápido. Nos momentos em que isso ocorre – e que Gladwell chama de “momento blink35 – a decisão tende a dar bons frutos, por mais que a plantação possa ter sido estranha.

Concluindo, estar aqui me anima, mas anima mesmo, daquele jeito que a origem da palavra remete a alma. Faz lembrar aquele processo, sei lá, de ionização, em que um átomo muda sua condição e isso afeta os átomos que estão perto dele. Para chegar onde eu quero, vejo que é preciso fazer um esforço que não é pequeno e há motivos para isso: quando se estuda psicanálise como se fosse bailarina, os efeitos de nosso estudo são diferentes de que simplesmente ter um conhecimento, é como se o conhecimento passasse a ser na gente: não é um botão que você liga e desliga.

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