ÉS...COLHAS

Estranhos modos de se proteger das indecisões na adolescência

Em seu melhor estilo “gente que exagera” Carla Tavares não pôde se contentar com a entrevista de um adolescente para saber o que eles pensavam a respeito de seu futuro: pegou cem logo de uma vez.

A gente até tentou dizer que era muito, mas, vamos combinar: não fomos nada convincentes porque todo mundo A – DO – ROU ler aquela montanha de questionários preenchidos com as comoventes jovens letrinhas manuscritas.

No começo, era só a Carla que queria porque queria descobrir como, na obscuridade da classe média baixa da capital de São Paulo (classe que parece invisível para estudiosos de quase todas as áreas), os jovens estavam agindo para fazer escolhas que implicassem na construção de um futuro. Depois, acabamos disputando questionários quase que no tapa.

Sabe por quê? Ainda estamos pasmadas com um estranho paradoxo. Por um lado, os meninos têm, sim, projetos para o futuro. Por outro, em grande número, parecem conservar as categorias do passado para construí-los. Até parece que passaram a vida sendo carregados para lá e para cá pelo taxista Jarbas...

Ficou curioso? Então acompanhe Dona Tavares em sua aventura no universo escolar do bairro São João Clímaco.

Que tipo de fruto o jovem dessa sociedade hipermoderna quer colher no futuro? Motivada por essa pergunta, fui a campo aplicar um questionário aberto para adolescentes entre 14 e 17 anos. Pretendia conhecer o que eles pensam sobre as importantes escolhas que terão de fazer e que afetarão seu futuro. Quais soluções estão inventando para essa época da inexistência do Outro20.

A primeira inspiração para dar início a esta reportagem foi a afirmação de Forbes (2003)21 segundo a qual os adolescentes compõem a geração que, mais tranqüilamente, lida com as mudanças de paradigmas de nosso tempo. Foi, portanto, visando a radiografar eventuais transformações sociais, que os procuramos e os interrogamos a respeito dos seguintes temas: futuro; família; profissão; a posição que eles pretendem ter na sociedade; e, finalmente, que imagem eles gostariam que os outros tenham deles no futuro.

Por razões práticas, resolvemos fazer um questionário e pedir para os meninos responderem. As perguntas foram abertas para que eles tivessem maior liberdade de expressar suas opiniões. Uma escola pública da cidade de São Paulo gentilmente abriu as portas. A escola fica no bairro de São João Clímaco, que nem é na periferia e nem é no centro da cidade.

A princípio, eu visitaria só algumas turmas de 9º. ano. Mas o interesse por parte dos alunos cresceu e acabei visitando turmas do 1º. e do 2º. ano do ensino médio. Quem era aquela moça diferente, nova atração na escola? Um rapaz sorridente e muito educado me aborda no corredor, a caminho de um obstruído e difícil caminho ao bebedouro. Vendo os papéis que eu segurava pergunta do que se trata. Eu explico e ele diz: “Ah, professora, vai na minha sala, vai. Eu quero muito fazer essa pesquisa! Vou falar com meu professor.” Eles me convidaram; eu fui.

Sempre estava acompanhada de professores da escola que me cederam parte de suas aulas para que eu conversasse com os alunos e aplicasse os questionários. A participação era voluntária. Minha interpelação a eles começava por explicar de onde eu era, por que estava ali, do que se tratava a pesquisa, onde ela seria veiculada e da importância da participação deles. “A revista vai estar na internet e todo o mundo poderá ler o que os jovens dessa escola pensam e querem do futuro”, eu dizia.

Várias reações: uns abriam os olhos com um brilho curioso, outros viravam para o lado e desconversavam, outros ignoravam completamente, outros se revoltavam, outros se punham a perguntar sem parar, outros pareciam instigados mas, ao olharem para o colega, faziam de conta que nem era com eles...

“Como implicar esses jovens nessa pesquisa?”, me indaguei. Diante da pergunta “Que que eu vou ganhar com isso?”, vinda de uma menina de uns 15 ou 16 anos, arrisquei: “Talvez imediatamente você não vai ver muito ganho, mas, respondendo ao questionário, você vai poder soltar sua voz no mundo e dizer o que você quer do futuro. As pessoas poderão ler o que vocês esperam, desejam, pensam. Pode ser que você não ganhe nada mas se você não responder, vai perder uma oportunidade de ter sua voz ouvida. E falar e ser ouvida já é uma grande coisa, né?”

Ela fingiu que não era com ela, continuou no papinho com o colega do lado que achava tudo aquilo uma babaquice. De repente, pegou um lápis, puxou o papel, deu um safanão no tal colega que não queria deixá-la escrever e, quando eu já ia saindo da sala, correu e, com um sorriso maroto, me entregou a folha preenchida. Ela havia escolhido falar.

Feliz da vida, levei o pacotinho para casa e iniciei minha análise interpretativa. Li-os por perguntas e levantei os temas recorrentes nas respostas. Acabei decidindo, sem saber muito bem porque, separar as respostas do 9º. ano (49 participantes) das do 1º e 2º ano do ensino médio (41 participantes). Hipotetizo que haja um deslocamento no olhar desses jovens quanto ao futuro que não depende da faixa etária (já que a seriação escolar não obedece as idades) mas do lugar em que se encontram no ensino.

Como não dava para contar tudo o que li para o leitor, eu procurei levar em conta o que eu tinha estudado a respeito dos três tempos do sujeito na entrada na linguagem para construir um modo de sistematizar as respostas. Ficou assim:

  • Colagem: respostas que parecem meramente copiadas e coladas, advindas de um repertório pronto;
  • Especularidade: respostas nas quais ainda se verifica uma alienação ao modelo pronto, mas que deixam escapar outros sentidos que estão sendo gerados, criados e que indicam um certo envolvimento do enunciador; e
  • Implicação: respostas nas quais, embora com algum otimismo, podemos perceber que o aluno toma a posição de autor de sua própria história e parece poder ousar se responsabilizar por aquilo que está para acontecer.

Tomando como exemplo a resposta dada à primeira pergunta (“Pra você, o futuro é...” vemos que, na prática, ficou bem difícil fazer esta separação à qual eu estava inicialmente inclinada a fazer. Veja, no quadro abaixo, um resumo dos temas abordados pelos adolescentes do 9º. ano (14 a 16 anos).

Série

Colagem

Especularidade

Implicação

9º. Ano

...Fazer faculdade
...Ter uma família feliz
...Uma família humilde
...Brilhante
...Uma sociedade mais justa
...Um bom trabalho
...Muita paz e saúde
...Moderno com muita tecnologia

...Trabalhar
...Nova vida
...Algo que ainda vai acontecer e que não se sabe
...Sem violência
...Sem drogas ou tráfico

 

...Transformar o futuro que quero pra mim
...Lutar pelo meu futuro
...Ser algo mais
...Ser mais especial
...Algo muito pessoal
...Algo que fazemos hoje para colher amanhã
...Uma oportunidade
...A liberdade do mundo
...Construir o que eu quero

Quadro A: Pra você, o futuro é...

Na primeira coluna, Colagem, pode-se ver que as frases que os jovens usam para conceituar o futuro são vagas, como se eles escutassem essas coisas muitas vezes e depois apenas repetissem sem pensar. Afinal, o que é uma família feliz pra um, é feliz para todos? Um bom trabalho envolve o quê? Na verdade, esses chavões estão prontos, fechados, logo, os sentidos não são questionados. Eles aparecem como modelos consistentes que podem ser adotados para si sem maiores questionamentos, porque quem não quer essas coisas no futuro? Mas do jeito que são enunciados, essas conquistas não portam espaço para o fazer-do-seu- jeito.

Outro ponto a ser levantado é que a conceituação de futuro para esses jovens se resume a algo que se pode possuir ou a um adjetivo, o que não indica que haja um sujeito autor desse futuro nem no nível da enunciação22. Nesse sentido, parecem apontar para um estado de inércia frente ao futuro e de posição de objeto passivo a se assujeitar a qualquer Outro que lhe convier.

Na coluna Especularidade, aparece o inesperado e a modificação. Esse sentido vem pelo novo, pelo que não se sabe (“Nova vida”, “não se sabe”, “sem”). Esses são sentidos comumente associados ao futuro, mas denotam uma mudança de condição. Essas respostas parecem indicar para um desejo de que as coisas sejam diferentes no futuro. Se fizermos um exercício de re-elaboração dessas frases temáticas, poderíamos ter uma oração em que o sujeito começa a se implicar e se colocar como autor do seu futuro: O futuro é eu trabalhar por algo novo e que eu não sei, sem as coisas que eu não gosto.

Vejo ainda uma alienação aos sentidos já postos, acompanhada, porém, de um movimento em fazer com que esses sentidos sejam particularizados e vivenciados de forma a enganchar o sujeito, colocando-o, inclusive, em posição de sujeito do enunciado, o que comumente poderíamos chamar de dono da sua história.

Na última coluna, Implicações, as respostas denotam o desejo por se inserir nesse futuro, até mesmo pelo emprego dos verbos no infinitivo para defini-lo: O futuro é lutar, é transformar, é ser, é construir. Todos estes verbos implicam alguém que faça, que aja, que arregace as mangas e se desloque. A construção da conceituação implica que haja um sujeito, pois a complementação de várias das frases começa por um verbo no infinitivo que implica um sujeito (ex.: “Transformar o futuro que quero pra mim” – quem vai transformar? “Lutar pelo meu futuro” – quem vai lutar?). Parece que esses alunos estão dando um movimento significativo para se fazerem sujeito de suas próprias histórias ao se incluírem como agentes desse futuro.

Mesmo quando a complementação não se dá por um verbo (como no caso: “Algo muito especial”, “uma oportunidade”), nota-se que eles usam palavras que se abrem em sentidos diversos, saindo do enquadramento do primeiro eixo. Um exemplo é a resposta rica e filosófica que uma aluna de 14 anos deu a essa pergunta: “O futuro é o amanhã (...) e também a incerteza de não saber se nós teremos ou não um amanhã”.

Ao ler as respostas das outras perguntas, a coisa piorou bastante... Se, na definição de futuro, os adolescentes indicaram a existência de algum lugar para escolher como construir esse tempo, em itens específicos, como a família e o trabalho que eles querem ter, pareceram ficar no arroz com feijão, com raras e honrosas exceções. Nesse sentido, as respostas dos dois grupos se equivalem. Listamos, a seguir, as respostas campeãs por ordem decrescente (das mais mencionadas para as menos)

 

9º. Ano

Ensino Médio

FAMÍLIA

...União
...Linda, feliz, paz, amor, saúde
...Construir a própria família
...Ajudar os pais
...Casar e ter filhos (2, vários, 1)
...Ser abençoada por Deus/ amar a Deus
...Ter a casa própria
...Bastante comunicação
...Que tenham um futuro digno
...Que tenham orgulho de mim
...Sem violência
...Com um carro, conforto
...Que a família cresça
...Não ter filhos

...União
...Feliz, saudável, paz, amor
...Apoiadora
...Ajudar a família (pais, parentes)
...Casar e ter filhos (2, 1, vários)
...Um bom lar para os filhos
...Respeito
...Mudar a história da família
...Morar sozinha

Quadro B: No futuro, quero uma família...

O desejo por união de ambos os grupos ganhou disparado, seguido pelos clichês de sempre: paz, amor, felicidade e blá, blá, blá. Apesar de esperados, os clichês foram citados em grande número de respostas. Eu esperava que haveria um maior deslocamento desse lugar comum, especialmente depois de ter lido as respostas à pergunta anterior. Casar e ter filhos também me surpreendeu devido às diferentes formas em que as famílias se configuram na sociedade hipermoderna.

Pensei que encontraria respostas que denotassem um desprendimento dos jovens do modelo tradicional, que fossem mais próximas do que se vive hoje em dia. Ajudar a família parece se referir a um lado solidário que grande parte das respostas deixou transparecer, da mesma forma que o respeito e a educação foram citados como qualidades que eles desejam cultivar em suas futuras famílias. Esse parece ser um movimento que contraria o que se apregoa quanto aos alunos de escolas públicas. Eles são normalmente acusados de serem mal-educados, desrespeitosos, mas, ao se projetarem como adultos, querem que suas famílias os reconheçam, tenham orgulho deles. As respostas quanto ao trabalho também seguiram a mesma linha. O quadro abaixo mostra as respostas, também em ordem decrescente.

 

9º. Ano

Ensino Médio

TRABALHO

...Ter um bom trabalho/emprego (ganhar bem, fazer o que gosto, trabalho digno, honesto, que sustente a família, fazer bem feito)
...Terminar os estudos
...Ser alguém na vida
...Lutar, trabalhar
...Ter o próprio negócio

...Ter um bom trabalho/ emprego (com os mesmos desdobramentos do 9º. ano)
...Dinheiro e vida própria
...Fazer doutorado
...Ajudar os outros

 

Quadro C: No futuro, quero como trabalho...

De novo, os clichês proliferam. As respostas deixam vagos os sentidos. Afinal, o que é ganhar bem? O que é um trabalho digno? O que é ser alguém na vida é o mesmo pra todo mundo? Mesmo a idéia de fazer doutorado me remete a colagem no que o Outro tem a dizer porque, em minha apresentação, havia mencionado o que eu fazia: doutorado. A única diferença aqui se deu na enumeração das profissões e, novamente, no sentido oposto que eu esperava.

Os jovens do 9º. ano indicaram uma gama de profissões maior e mais variada do que os do Ensino Médio. Os mais jovens mostraram, também, mais criatividade nas possíveis escolhas. Confira no Quadro D.

 

9º. Ano

Ensino Médio

Profissões

...Jogador de futebol
...Advogado/ médico
...Veterinário
...Economista ou psicólogo
...Metalúrgico
...Bombeiro
...Bancário
...Empresário
...Engenheiro Civil
...Engenheiro Mecânico
...Administrador de empresas
...Gerente
...Cineasta
...Governadora de um estado

...Jogador de futebol
...Advogado
...Médico
...Informática (só citou o campo, não a profissão)
...Ter uma pastelaria
...Secretária
...Bióloga
...Nutrição
...Professor de educação física
...Hotelaria
...Área de eletrônica.

 

 

 

Quadro D: Pra você, uma profissão a ser considerada é...

As três primeiras profissões das duas colunas tiveram vários votos. As demais, apenas um. Como estamos discutindo os novos modos de constituição do sujeito na sociedade hipermoderna, me causou estranhamento que as escolhas que esses jovens farão quanto ao seu futuro profissional sigam aquilo que está previsto quase desde a fundação dos séculos! A ancoragem deles a um Outro capaz de cingi-los de significantes parecia ser tamanha que cheguei a me perguntar se esses jovens estariam incluídos nisso que estamos chamando de hipermodernidade.

Não me parece que podemos acusar os jovens de serem pouco criativos e nos sentar sem fazer nada. Vamos refletir um pouco a respeito da escolha das profissões. Ser jogador de futebol é o sonho de se colocar ator nessa sociedade do espetáculo23 em que vivemos; o advogado é aquele que se dá bem; o médico ainda tem a imagem de respeitado, coisa que poucos deles experimentam em sua vida. Para esses jovens, ansiar alcançar essas posições já não seria um pequeno indício de que se quer mais do que o que eles vivem? E o que dizer de dois adolescentes de 14, 15 anos que vislumbram ser cineastas e governadores (governadora!). O cineasta de nossa pesquisa é bem sucinto em suas respostas, mas que profundidade: “No futuro, queria ser conhecido como eu mesmo”!

Não estariam eles se apoiando nessas imagens para, pelo menos em seus sonhos, construírem algo diferente do que lhes estaria determinado? Na esperança de responder a esta questão, fui teorizar. Aprendi muita coisa. A principal delas diz respeito à singularidade, em oposição ao emprego de soluções prêt-à-porter. Nesta perspectiva, a responsabilidade da parte do indivíduo por suas escolhas é o elemento que participa do novo modo de ser e de estar no mundo decorrente da ruína da sociedade pai-cêntrica. Esta derrocada torna mais consistente a possibilidade do sujeito criar uma forma de inscrição própria24 e deixar aí a marca de seu estilo, de sua singularidade25.

Muito contente eu não fiquei ao tomar contato com as respostas dos jovens de São João Clímaco. Sua mesmice predispõe ao tédio. Mas, levando em conta aqueles que conseguem driblar as amarras da determinação, trabalhar duro e construir um estilo diferente, novo, algo singular. Da próxima vez que eu ouvir um educador dizendo que os jovens não fazem expectativas, não têm idéias, são uns perdidos, eu vou, sem a menor sombra de dúvida, dar uma de Freud26 e perguntar na lata: e você, já fez o que para que isso fosse diferente?

Para os jovens que entrevistei, também, pretendo dar um retorno. Quero assegurar-lhes que é possível fazer diferença, dar o melhor para si, saber escolher na incerteza de um futuro. Inspirada no título deste artigo, eu lhes direi: Vocês são; por isso colham um lindo e singular fruto no pomar da vida!

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