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Shantal por si mesma
Quando criança, na escola, mal começava o ano, e eu lia todo o conteúdo dos livros didáticos, o que tornava as aulas enfadonhas e, pra mim, dispensáveis. Enquanto as demais crianças aceitavam aquele sistema acadêmico e se encaixavam a ele, eu não... e sofria por ser assim, por pura incompreensão e falta de direcionamento. Minha relação com a TV também era um tanto doentia, eu sentia necessidade de ver tudo ao mesmo tempo, e quando não tinha ainda TV com controle remoto, eu via dois canais ao mesmo tempo porque tinha dois aparelhos no meu quarto, e ainda gravava outros canais pelo vídeo cassete. Hoje em dia, não consigo ver TV sem mudar de canais compulsivamente e não consigo ver um programa, um documentário, uma notícia, ou um simples filme de Sessão da Tarde sem correr pro Google e procurar mais informações sobre... Antes, era a correr pra biblioteca mais próxima... Com o advento da Internet, penso que tudo se potencializou, tudo ficou muito a mão, todas as mídias num único local... potencializaram essa minha tendência compulsiva... Fico no computador aproximadamente 18 horas por dia, vejo filmes, pesquiso sobre eles na mesma hora, vejo notícias e busco outras fontes no mesmo instante, conheço pessoas e fuço a vida delas, passo horas intermináveis escrevendo nos meus blogs, falando no meu podcast, postando nos meus fotologs, postando em comunidades de sites de relacionamentos, fico na maioria das vezes com mais de 10 abas abertas no mesmo navegador, fazendo coisas diferentes ao mesmo tempo, compulsivamente. Prefiro falar com as pessoas através da Internet, mesmo as que conheço pessoalmente há anos, mesmo as que convivem comigo há anos... Acho mais direto, por incrível que possa parecer, já que na Internet a impressão que tenho é que as idéias ficam mais expostas, é como se eu pudesse acessar o interior de uma pessoa diretamente. A Internet e a rapidez com que as coisas se dão neste meio, confesso que piorou muito minhas relações humanas, conhecer pessoas fora da rede requer tempo. E dedicação... E eu me tornei uma pessoa por demais acelerada, a vontade que tenho é de clicar nas pessoas e abri-las em pastas, arquivos, acessar informações, dados que nem sempre as pessoas nos deixam acessar... ou deixam depois de determinado tempo... Mas o tempo mudou pra mim... Quero respostas rápidas, quero que as coisas aconteçam de imediato. E me sinto frustrada quando vejo que certas coisas acontecem no seu devido tempo. A Internet nos dá uma falsa sensação de controle às vezes e, na vida “real”, nem tudo está sob nosso controle. As pessoas me consideram uma pessoa exagerada. Mas eu acho que medidas são convenções, e convenções só servem pra padronizar. Isto nunca serviu pra mim. O meio termo nunca serviu pra mim. Preciso de intensidade em tudo, no amor, no sexo, nas amizades, nas experiências mais singelas tudo tem que ser intenso, senão me desmotiva. Ser desmedida e imediatista, tornou-me uma pessoa que não consegue dar continuidade a algumas coisas que dependem de muita dedicação e tempo. Passar muito tempo na Internet mudou até minha maneira de escrever, hoje eu não consigo mais escrever, acho o processo lento demais, eu pego o microfone, gravo o que penso e, depois, transcrevo o que disse. Minha mente ficou acelerada demais. Mais ainda com o acesso por banda larga. O tempo todo baixando músicas, e-books, lendo e-mails, trocando arquivos de vídeo, imagens, cada vez de maneira mais rápida. Eu consumo muita informação diariamente, mas tudo isso parece descartável... navego, de página em página, e geralmente quando começo a pesquisar determinado assunto, disperso, clico em links que me levam pra outras páginas, outros links, e meia hora depois o foco da minha pesquisa inicial já se perdeu... Minha memória hoje é péssima... parece que toda a informação que consumo compulsivamente se perde... está fragmentada... sinto que VIVER a Internet indexou meus pensamentos, é como se minha mente tivesse passado de seqüencial [analógica] pra indexada [digital], e as informações se encontrassem em blocos, e nem sempre consigo as sinapses pra acessá-los... sinto uma dificuldade enorme de lidar com isso, como se a mente e minha parte orgânica, já não andassem no mesmo compasso. Tenho síndrome de abstinência quando estou longe do computador... não apenas longe da Internet, mas longe do computador. Sinto até dores físicas, por não poder digitar, por não poder desenhar, por não poder me expressar de maneira digital. Manter-me muito tempo na Internet mudou até meu sono, hoje durmo em módulos, ao lado do computador, acordo às vezes só pra ler e-mails, pra ver algum site de notícia, pra atualizar os feeds de podcast. ” |