PAIXONÁRIOS

Louvar os tempos idos ou se abrir para a invenção?

Quando uma coisa muda, ou a gente muda com ela ou perde o bonde, já diziam nossos avós... Infelizmente, nem todo mundo sabe disso, e, enquanto o carro passa, fica latindo para ele tal e qual cachorro vira-latas. Isso lembra o saudosista daquela piada infame, porém, muito ilustrativa:

Repórter: − Qual a sua opinião sobre os tempos atuais?
  Saudosista: – Comparando com o meu tempo? ! Tá mar!

Coitado do saudosista! Impede-se de ter um futuro na mesma medida em que permanece grudado no passado... Mas, como será que anda o escore do mundo atual: tem mais gente olhando para trás ou querendo construir o que vem à frente?

Enquanto uma vaca sempre soube e saberá que é uma vaca, o homem se define em função do tempo em que vive2. Há quem escolha ficar ruminando o tempo de ontem e as mazelas do tempo atual3. Há também quem se levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Aqueles que fazem outra lavoura. Posto isso, ocorreu-nos perguntar o que os diferencia? Não quisemos responder isso olhando apenas para os intelectuais. Achamos que aí ficava fácil. Por este motivo, nossa equipe de reportagem foi às ruas e entrevistou gente do povo, no caso, dois taxistas.

O primeiro, paulista, tem 71 anos. O segundo, carioca, mulherengo, não passa dos 40 e está cheio de amor para dar. Seu Jarbas perdeu a carruagem do tempo. Mantém seu táxi, mas não se interessa por torná-lo mais rentável. Carlão é descolado, se vira nos trinta e não perde uma única corrida.

Carla Tavares curtiu Carlão. Jura que todas as vezes que for ao Rio vai pegar táxi com este mesmo motorista, cujo cartão guarda, com cuidado, na carteira de documentos dentro da bolsa de couro. Cíntia Nasrala, ao contrário, prefere ir a pé do que aguardar Jarbas, cujo papo não está dando para entreter mais ninguém. Lendo os dois ensaios que se seguem, o leitor vai perceber que Jarbas e Carlão têm uma semelhança única: serem motoristas de táxi.

Esta semelhança não vai muito longe, porém, quando o assunto é saber “se virar” no mundo globalizado, no qual, mais do que nunca, é necessário inventar saídas criativas para as crises que se apresentam. Os dois motoristas apresentam comportamentos opostos:

  1. no manejo da conquista do cliente;
  2. na invenção de novas formas de recebimento pelo serviço prestado;
  3. na possibilidade de aposta no outro.

Até pode parecer pouca coisa, mas, pensando bem, a equipe de redação concluiu que existem uns três séculos de diferença entre o modo de agir de quem não se dispõe a esperar o cliente “tomar mais uma” e daquele que se desdobra à procura de uma forma de fazer a corrida a qualquer preço.

Carlão cativa o cliente criando um laço forte e invisível. Ele inventa um futuro no qual haja lugar para si e para seu cliente. Jarbas, ao contrário, chora de saudades dos bons tempos de papai e se acomoda em um presente onde ele próprio tem cada vez menos lugar. Recolhe-se, esperando o que a vida lhe reserva, vendo a vida passar pela janela do seu táxi.

Vamos conhecer suas histórias.

Corpo no táxi, cabeça no amanhã

Carla Nunes Vieira TAVARES

“Foi um rio que passou em minha vida,
e meu coração se deixou levar4

Paulinho da Viola

É noite. Após um dia angustiante em busca de notícias sobre a saúde de meu pai, desembarco no Santos Dumont, depois de três anos longe de minha cidade natal. Queria que minha visita ao Rio fosse diferente. Ver a cidade de cima, como um enorme cobertor azul petróleo, pontilhado por estrelas coloridas, as luzes da cidade maravilhosa, foi uma visão ao mesmo tempo tocante e angustiante.

Não vinha a prazer. Cansada, com medo do Rio por causa do que todo mundo diz, preocupada em chegar a Nova Friburgo ainda naquela noite (220km dali, na serra fluminense), olho para os lados: Alugar um carro? Ir de ônibus? Pegar um táxi? Um homem de calça escura e camisa branca me pergunta: “Vai de táxi, madame?” Ignoro. Não vou cair nessa do táxi. Sou descolada, carioca da gema. Aqui não, morou?!

Mas, depois de rodar o aeroporto em busca de soluções, começo a considerar a opção do táxi para ir à rodoviária. De novo, o mesmo moço: “Quer um táxi, madame?” Eu respondo na lata: “Quanto fica para me levar até Nova Friburgo?”, surpresa com minha própria imprudência. Ele diz: “Pois não. Vou consultar a tabela. Me acompanhe, por favor”. É preciso dizer que tudo isso ele disse com aquele sotaque carioquês carregado, que eu mal reconhecia.

Me acompanhe?! Como assim? Onde ele vai me levar? E se for um assalto? Vou ou não vou? Fui. O carro dele estava parado na área de embarque. Estava escuro e eu morria de medo. Caminhava à distância, tentando me proteger. Fiquei longe do carro enquanto ele pegava a tal tabela. Uma, duas, três, sei lá quantas tabelas ele pegou pra ver o preço da corrida pra Friburgo.

E eu pensava: que estúpida! Quando ou como vou conseguir pagar um táxi pra Friburgo? Onde eu estava com a cabeça? Comecei a desconversar e a propor que ele me levasse à rodoviária. Pegaria um ônibus. “Não, dona. Pera aí. Um minutinho só”. Pressionado pela minha pressa, ele me mostrou uma tabela de 2005 em que o preço da corrida seria R$ 280,00. Quase caí pra trás. “Não, moço, não tenho esse dinheiro. Preciso chegar à Friburgo hoje ainda, mas não dá”.

Ele já havia puxado conversa comigo e descoberto que meu pai estava no hospital. “Por isso não, dona. Quanto a senhora tava pensando que ia gastar?”. “Ah, sei lá. Acho que foi uma loucura minha. Me leva na rodoviária, por favor”. “Não senhora. Diga lá, quanto?” “Ah, uns R$ 180,00 ” . “Nossa, 180 não dá nem pros pedágio”. “Então, não tenho esse dinheiro, moço. Por isso vou de ônibus”. “Não, dona, veja só, se a senhora for comigo até a rodo, vai gastar no mínimo uns R$ 40,00, por causa do trânsito. Mais a passagem... Olha, eu vou fazer essa corrida de qualquer jeito! Vamu fazê o seguinte: Me dá 200 e a senhora paga os pedágio, certo?

Pensei, fiz o cálculo de quanto ia custar alugar um carro, mais o combustível, tempo passando e ele ali, me esperando pacientemente. “Certo!” Topei! Entrei no carro ainda muito cautelosa. Mas bastaram dez minutos pra saber que o Carlão era gente boa, escolado na escola formal e da vida. Tinha o curso de economia, trabalhava no ponto do aeroporto há 25 anos, revezava com o pai: de dia o pai, de noite ele. Não tinha hora de trabalho, não. Ele ficava até não ter mais ninguém no Santos Dumont. Não desperdiçava nenhuma oportunidade. Ficava no saguão do aeroporto abordando educadamente os passageiros que chegavam e, por isso, tinha muita história para contar.

Contou que uma vez abordou um cara com umas malas no saguão por volta das 20h e o cara recusou o táxi por três vezes. Persistente o cara, viu. À meia noite, quando tudo já estava fechando, o homem ainda andava pelo aeroporto muito angustiado. Carlão novamente entrou em ação. Perguntou se podia ajudar. O cara resolveu se abrir. Tinha tido um problema com o banco, não conseguia sacar dinheiro, tinha uma reserva num hotel na Barra pra dois dias, mas não tinha a grana para chegar lá. “Não tinha dinheiro nem pro ônibus, dona”.

Carlão veio com a solução inusitada. Ligou para o hotel, confirmou a reserva e disse para o homem: “Sem problemas, chefe. Eu levo o senhor até lá e o senhor deposita o dinheiro na minha conta. Se preferir, pode me contratar pra fazer a corrida de volta para o aeroporto e pagar as duas”. Adivinhem o que aconteceu? Claro, ganhou o cliente. Quando vai ao Rio, o homem só pega o táxi do Carlão e já houve várias outras ocasiões em que precisou de São Carlão pra resolver problemas semelhantes.

Ele disse: “Dona, a gente tem que aprender a conhecer as pessoas. Esse moço, por exemplo. Ele é gente fina, super maneiro, mas tem uns probleminhas com organização. Eu vou perder o cliente por causa disso? Não. Já conheço e convivo com os defeitos dele. Sou de confiar nas pessoas. Olho pra elas, manjo qual é a do sujeito e arrisco. Se eles mancarem comigo, só vão mancar uma vez. E olha que nesses 25 anos, aconteceu pouquíssimas vezes, hein ”.

É, esse Rio estava me saindo surpreendente!

Outra vez foi o gringo que chegou sozinho ao aeroporto e precisava de umas informações pra chegar a Cabo Frio. Ninguém falava inglês, nem as mocinhas da Riotur. Quem é que deslanchou a falar inglês: Carlão! O cara fala inglês, meu! Motorista de táxi! “Eh, dona, não dá pra ficar de bobeira, não. Sou um dos únicos aqui do aeroporto que fala inglês. Fiz Economia. Trabalhava num banco. Achei que o curso era o melhor para o que eu fazia. Aproveitei e fiz um pouco de inglês também. Mas a vida dá as voltas, e se não abrir o olho, a gente cai mesmo. Perdi o emprego no banco e comecei no táxi. O meu diferencial é esse: sou boa praça, confio nas pessoas, procuro ajudar a resolver os problemas delas”. Bem, nem é preciso dizer que o tal gringo também ficou fã de Carlão. Foi conversando com ele do Rio até Cabo Frio, na maior animação porque tinha achado alguém que falava a mesma língua. Ganhou o cliente e uma grana legal.

Quanto a mim, Carlão escutou o caso do meu pai, minhas angústias por não saber notícias, me contou seus casos, me deu conselhos, foi camarada, trilhou comigo um caminho que não precisava, mas que se dispôs a fazer. Naquela viagem, percebi que no rio da vida alguns simplesmente se deixam levar, sem paixão, sem se importar pra onde, indo com a correnteza, bastando-lhes a água.

Outros, como Carlão, mergulham na vida de peito aberto, permitindo que o coração ocupe o lugar do racional e lhes mostre vias inovadoras de se engendrar nessas águas e deixar marcado ali o lastro de seu percurso. Mergulham fundo; encantam a gente. A vida passa, e, de algum modo, eles ficam: deixam marcado ali o lastro de seu percurso.

E, se me dão licença de liberar a emoção, recuperando as canções que tocaram no percurso, afirmo que o exemplo de Carlão me fez afastar a nuvem de lágrimas que pairava sobre os meus olhos5. Motivou-me a pensar em soluções criativas para o encontro que me aguardava.

Em homenagem à escola do coração de Carlão, afirmo: depois desse taxista que passou em minha vida, se meu coração for consultado, no Rio, só tenho um motorista para indicar.

 

Um homem para quem o tempo não passou

Cíntia Hattori NASRALA

Pra mim se a água correr pra lá correu, se
correr pra cá correu, o importante é ter a água

Jarbas, um motorista

No artigo que se segue, vou relatar a visão de mundo de Jarbas, um motorista de táxi, de 71 anos de idade e 35 anos de experiência num dos pontos de táxi mais antigos do bairro Vila Mariana. Começo contando que, quando fui incumbida da entrevista com um motorista de táxi, tive que percorrer vários pontos da vizinhança para encontrá-lo.

Parecia que não existia mais, neste mundo de meu Deus, alguém que tivesse permanecido a vida toda em uma mesma profissão e... não é que era quase isso mesmo? Perguntando aqui e ali, descobri que o universo dos taxistas possui muitos personagens recentes (com cinco a dez anos de trabalho), provenientes da dispensa de outros tipos de trabalho, e pouquíssimos motoristas de longa data. Conversando com um dos novatos, recebi a indicação de um ponto onde, segundo ele, seria o paraíso dos motoristas com mais de 20 anos de experiência.

Resolvi ir até lá para marcar uma entrevista. Lá chegando, encontrei vários senhores sexagenários, alguns sentados no banco e outros dentro de seus carros em uma fila de aproximadamente cinco carros. Como era fim de tarde, horário de grande movimentação, marquei para duas da tarde de sábado, segundo eles, horário morto, parado...

Sábado à tarde, cheguei ao ponto com o gravador a postos, pilhas novas e ansiosa para ver o que ia rolar. O que levo? Um banho gelado!!! Nenhum dos motoristas com quem conversei estava presente e o único presente não se dispôs. Não gostava de entrevistas e estava na hora de ir embora. Sugeriu que eu seguisse para outro ponto à procura de um tal de Ênio, que “com certeza fará a entrevista...”. É, a comunicação parece não ser o forte da velha guarda... Você já adivinhou? Fui recebida por Ênio com olhares desconfiados e um “não gosto de entrevistas...”.

Desapontada, fui passando por vários pontos, àquela hora já quase desabitados, perguntando e quase me propondo a oferecer pagamento pela entrevista. Na última tentativa da tarde, fui ao ponto onde, finalmente — aleluia !— encontraria Jarbas.

Porém, eu tinha comemorado cedo demais... Era um taxista preocupado com os honorários que receberia pela entrevista... Nós estávamos até conversando, mas fomos interrompidos por uma jovem que queria ir a um bar em Moema. Pronto: entrevista encerrada antes do início!

Comovido com minha deplorável situação, um dos novatos me ensinou que os antigos vão ao ponto às seis da manhã e me aconselhou que estivesse lá neste horário na segunda-feira. O horário era péssimo, mas, por amor à arte, fui pontual. Desta vez, seu Jarbas “conversou”.

Segundo suas palavras, minhas dificuldades tinham tido origem no fato de que, hoje em dia, os taxistas “vêm para conseguir um ganha pão, não para repor o dinheiro investido...”. E é caro! Aprendi com ele que uma vaga em seu ponto custa R$ 40 mil, no aeroporto R$180mil; investimento este, em geral, feito com “dinheiro recebido da dispensa de outro emprego”.

É um saudosista inveterado. Iniciou sua carreira vindo de uma vida enclausurada de tapeceiro, quando ficou noventa dias sem pegar novos pedidos e levando marmita de “sobradinho”, para almoço e jantar. Trabalhava desde cedo até tarde da noite para dar conta do trabalho. Com suas reservas, comprou um carro, passando a fazer parte de uma frota de táxis. Na época, o integrante da frota tinha vínculo empregatício, registro em carteira e recebia 30% das corridas do dia.

Hoje, o frotista aluga o carro. Conta casos de quando “a frota veio buscar o carro por falta de pagamento”. O ponto de táxi é um dos mais antigos da Vila Mariana, é da época em que atendia todos os bairros vizinhos, como Aclimação, Paraíso. Havia clientes para os taxistas do ponto e para outros táxis que passassem vazios. Hoje a fila de táxi parado é tão grande que Jarbas só trabalha no período da manhã e quando vai almoçar, não retorna. Enquanto estive no ponto, aproximadamente uma hora, a fila de dez carros se manteve. São vinte e um carros no ponto e pontos a cada dez metros.

Na opinião de Jarbas, os clientes não mudaram muito, continua considerando-os amigos. Nesses 35 anos de profissão, teve a sorte de ter sido assaltado uma única vez. Pegou um grupo, que para seu espanto incluía uma moça, e foi levado para uma rua pouco movimentada. Armados, os jovens levaram o dinheiro arrecadado no dia e o que ele tinha trazido para pagamento de uma conta.

Conta que transportou uma mulher em trabalho de parto e que ao chegar ao bairro do Ipiranga, para sua sorte, encontrou uma viatura da polícia, para onde transferiu a mulher. A criança nasceu na viatura. Sentiu-se aliviado por não saber se daria conta de fazer o parto.

Sobre clientes bêbados, afirma já ter transportado um homem que pediu que parasse num bar na esquina seguinte, “para tomar mais uma”. Abandonou o cliente no bar, desistindo da corrida.

Filosofa contando o caso de um casal de velhinhos que diz já ter sido transportado por ele anteriormente: “O senhor se lembra?” No início, Jarbas não se lembrou e respondeu que podia ser. Durante o percurso, a “velhinha” percebeu que esqueceu os óculos, o que deu início a uma discussão: “vai pra pqp, os óculos são seus, você tem que dar conta deles...”. Imediatamente, se lembrou do casal. Sobre o fato, declara em tom professoral: “Tem casal que é melhor brigar junto do que viver separado”.

Quando a questão é a diminuição do trabalho, lamenta o aparecimento dos motoboys, que, devido a maior facilidade no trânsito, substituíram os táxis no transporte de documentos e de encomendas de indústrias que, antigamente, eram clientes, como a Bozzano e a Colgate.

Para concluir, retomando a epígrafe deste artigo, eu diria que, embora não fosse bonitão, Jarbas me fez lembrar Narciso:6 a exemplo do personagem da tragédia, ele também insistia em ficar contemplando as águas paradas que, no final das contas, podem ser fascinantes. Mas mortíferas.

Página Principal