| ESTUDOS |
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Amores Beth Almeida Com este titulo, respondo ao convite para participar deste evento que coloca em diálogo a Psicanálise e o Direito. Coube-me discutir com João Paulo Martinelli o seqüestro de Natasha Kampusch. Logo após o desfecho deste caso, Jorge Forbes escreveu um artigo, “Natasha, um caso de amor ou de polícia?” Esse artigo é a base do meu comentário. Procurarei honrar a beleza, a sensibilidade e a precisão com que Jorge Forbes fez a leitura desse acontecimento. João Paulo Martinelli, em sua apresentação, coloca as seguintes questões: “Ate que ponto podemos dizer que havia um consentimento de Natasha?” Eu tomo a palavra. Peço licença para desconsiderar a idade, propondo desde já olhar o caso com a lente da psicanálise. Entro então na vertente da “atemporalidade”. Busco uma referência na fala do colega Márlio, numa mesa de trabalho que antecedeu a nossa: Com isso posto, inicio minha apresentação, com a exibição de um fragmento do filme “Ata-me” de Pedro Almodóvar. Cena onde a personagem, que havia sido raptada, pede ao raptor: “ata-me”. Almodóvar e sua capacidade infinita de suspender o juízo sobre os homens...que nos conduz até onde o humano se apresenta em toda a sua ambigüidade, miséria e grandeza. Agora, situando: O fato, 1998. O seqüestro de uma menina de 10 anos, Natasha Kampusch, capturada quando ia para a escola. A cena: Um cativeiro, numa casa modesta, nas proximidades de Viena, num pequeno porão sem janelas, de seis metros quadrados. Tinha um banheiro com ducha e uma cama pequena, uma televisão, um rádio, livros, brinquedos e revistas. O desfecho: Natasha viveu lá por oito anos, fazendo inclusive passeios ocasionais à cidade, e ajudando nas tarefas da casa. Priklopil relaxava suas medidas de segurança e as chances de Natasha fugir aumentavam. Em 2006, aos 18 anos de idade, pesando 42 quilos, (menos do que pesava aos 10 anos), limpava o carro de seu sequestrador . O portão que dava para a rua estava aberto, ela correu para fora. (clique para ouvir a melodia) “Beatriz” de Chico Buarque e Edu Lobo
Elementos para um exercício de julgamento:
Conclui-se que Natasha é um caso típico da “Síndrome de Estocolmo”, fenômeno psicológico em que o refém demonstra afeição e dependência emocional por seu captor. Esta “síndrome” foi inventada em 1973, a partir de uma ocorrência, onde três mulheres e um homem ficaram seis dias reféns de bandidos em um assalto a banco em Estocolmo e “para surpresa de todos, os reféns criaram uma relação afetiva com os bandidos”, por isso o nome... Quanto a Priklopil, investigações posteriores confirmam não haver mais nenhum crime relacionado a ele, e não era procurado em nenhuma outra região.
“Natasha mantém fotos do caixão do seqüestrador em sua bolsa”.
Na primeira entrevista conta que viu o homem, sentiu um frio na barriga, mas mesmo assim prosseguiu e foi apanhada.
E completa lembrando a existência dos “cativeiros disfarçados em cotidianos mal ajambrados, do companheiro ou da companheira insuportável, do emprego chatíssimo e injusto, da reunião infernal... “ “COMO GOSTARIAMOS QUE OS AMORES FOSSEM NORMAIS... QUE NÃO TIVÉSSEMOS QUE NOS CONFRONTAR COM AS SUAS ESQUISITICES...“ (J. Forbes) Forbes pergunta: “Quem mandava em quem? Quem aprisionava quem? Jorge Forbes, em seu texto que dá nome ao debate desta mesa de trabalho, aponta duas direções de reflexão, e elas, em última instância, se conjugam. “Natasha conta que via naquele homem alguém que se arriscava por ela. Há quase uma certeza de que ele tenha se matado por ela. Forbes conclui ressaltando que: Estamos em um novo tempo de mudança paradigmática do laço social, do surgimento de uma nova forma de responsabilidade frente ao acaso e à surpresa. Temos duas vias numa única estrada. Natasha “sabia”... e prosseguiu, foi em frente. Entregou-se ao aprisionamento. Suas palavras contam isso. A medida da paixão (Lenine) “’E como se a gente não soubesse Forbes nos lembra que há homens que fantasiam “educar a mulher” e que há mulheres que exigem que um homem lhes declare amor com bem mais que “palavras, palavras, palavras.” Amores. Sempre estranhos. Quereres – Caetano Veloso “Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão Sr. Juiz... e ainda por cima tem as derivações... Leve-a consigo, desde que a deseje e a queira por perto. Deixe passar um pouco de tempo lá para depois abrir a caixa. Não dê ouvidos aos resmungos, aos palavrões, ao choro que “parece” sentido.
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