ESTUDOS

Amores

Beth Almeida
Ipla, Outubro 2007

Com este titulo, respondo ao convite para participar deste evento que coloca em diálogo a Psicanálise e o Direito. Coube-me discutir com João Paulo Martinelli o seqüestro de Natasha Kampusch. Logo após o desfecho deste caso, Jorge Forbes escreveu um artigo, “Natasha, um caso de amor ou de polícia?”

Esse  artigo é a base do meu comentário. Procurarei honrar a beleza, a sensibilidade e a precisão com que Jorge  Forbes fez a leitura desse acontecimento.

João Paulo Martinelli, em sua apresentação, coloca as seguintes questões:

“Ate que ponto podemos dizer que havia um consentimento de Natasha?”
“No Brasil é a idade da vítima que vai mudar a relevância do caso... antes dos 14 anos, é caracterizado como violência sexual...”
“Não há  preocupação com a vítima no Brasil... não interessa, não se pergunta até  que ponto a pessoa colaborou...”
“Se a vítima ‘consentiu’... seria possível pensar na aplicação da mesma pena?”

Eu tomo a palavra. Peço licença para desconsiderar a idade, propondo desde já olhar o caso com a lente da psicanálise. Entro então  na vertente da “atemporalidade”.

Busco uma referência na fala do colega Márlio, numa mesa de trabalho que antecedeu a nossa:
“ Os fora-da-lei:
   os criminosos
   os loucos
   os apaixonados”

Com isso posto, inicio minha apresentação, com a exibição de um fragmento do filme “Ata-me” de Pedro Almodóvar. Cena onde a personagem, que havia sido raptada, pede ao raptor: “ata-me”.

Almodóvar e sua capacidade infinita de suspender o juízo sobre os homens...que nos conduz até  onde o humano se apresenta em toda a sua ambigüidade, miséria e grandeza.

Agora, situando:

O fato, 1998.  O seqüestro de uma menina de 10 anos, Natasha Kampusch, capturada quando ia para a escola. 

A cena: Um cativeiro, numa casa modesta, nas proximidades de Viena, num pequeno porão sem janelas, de seis metros quadrados.  Tinha um banheiro com ducha e uma cama pequena, uma televisão, um rádio, livros, brinquedos e revistas.

O desfecho:  Natasha viveu lá  por oito anos, fazendo inclusive passeios ocasionais à cidade, e  ajudando nas tarefas da casa. Priklopil relaxava suas medidas de segurança e as chances de Natasha fugir aumentavam.

Em 2006, aos 18 anos de idade, pesando 42 quilos, (menos do que pesava aos 10 anos),  limpava o carro de seu sequestrador . O portão que dava para a rua estava aberto, ela correu para fora.
Na seqüência, então com 44 anos de idade, Priklopil  jogou-se na frente de um trem em movimento.

(clique para ouvir a melodia)
 
“Sim, me leva pra sempre, Beatriz,
me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz”

“Beatriz” de Chico Buarque e Edu Lobo

 

Elementos para um exercício de julgamento:

  1. Da imprensa
  2. Da mãe de Natasha
  3. De Natasha
  4. De Jorge Forbes
    1. Da imprensa:

Conclui-se que Natasha é um caso típico da “Síndrome de Estocolmo”, fenômeno psicológico em que o refém demonstra afeição e dependência emocional  por seu captor. Esta “síndrome” foi inventada em 1973, a partir de uma ocorrência, onde três mulheres e um homem ficaram seis dias reféns de bandidos em um assalto a banco em Estocolmo e “para surpresa de todos, os reféns criaram uma relação afetiva com os bandidos”, por isso o nome...

Quanto a Priklopil, investigações posteriores confirmam não haver mais nenhum crime relacionado a ele, e não era procurado em nenhuma outra região.

    2. Da mãe de Natasha:

“Natasha mantém fotos do caixão do seqüestrador em sua bolsa”.
“Recusa a jogar fora roupas usadas durante o período do cativeiro”.

    3. De Natasha:

Na primeira entrevista conta que viu o homem, sentiu um frio na barriga, mas mesmo assim prosseguiu e foi apanhada.
Sobre ele, conta que passou de uma intenção inicial de ganhar dinheiro para “criá-la”, propriamente falando.
Sobre não ter saído antes, diz que foi  porque “ficaria mal para ele”.
Sobre seus sentimentos depois que saiu:
“Ele fazia parte da minha vida, é por isso que, de certa forma, estou de luto por ele. “
E afirma também ter tido “contato sexual” com o seqüestrador, sem dar detalhes disso.

    4. De Jorge Forbes: “Não acredito que Natasha tenha obtido  a primeira página de toda a imprensa mundial pelo crime sofrido. Disto, temos muitos outros exemplos mais espetaculares e mais próximos. Natasha interessa ao mundo como “um estranho caso de amor”.

E completa lembrando a existência dos “cativeiros disfarçados em cotidianos mal ajambrados, do companheiro ou da companheira insuportável, do emprego chatíssimo e injusto, da reunião infernal... “

“COMO GOSTARIAMOS QUE OS AMORES FOSSEM NORMAIS... QUE NÃO TIVÉSSEMOS QUE NOS CONFRONTAR COM AS SUAS ESQUISITICES...“  (J. Forbes)

Forbes pergunta:

 “Quem mandava em quem? Quem aprisionava quem?
“O seqüestrador, dono dos movimentos de Natasha, ou Natasha, dona da reputação do seqüestrador?”

Jorge Forbes, em seu texto que dá nome ao debate desta mesa de trabalho, aponta duas direções de reflexão, e elas, em última instância, se conjugam.
A primeira, cujos recortes já mostrei e citei, e uma segunda, que faço agora.

“Natasha conta que via naquele homem alguém que se arriscava por ela. Há quase uma certeza de que ele tenha se matado por ela.
Ela declara-se cúmplice de assassinato, junto com o motorista que o levou à estação de trem e o condutor do próprio trem, sob o qual, ele, seu seqüestrador, terminou.”

Forbes conclui ressaltando que:

Estamos em um novo  tempo de mudança paradigmática do laço social, do surgimento de uma nova forma de responsabilidade frente ao acaso e à surpresa.
Natasha e seu guardião se mostraram irresponsáveis: eles sabiam o que lhes ocorria.
Nesse novo tempo, há que se ser responsável do que se sabe, mesmo que seja pouco, pois não tem nada além.”

Temos duas vias numa única estrada.
A estranheza do amor e a responsabilidade frente ao acaso, frente ao que se sabe, mesmo que seja pouco.

Natasha “sabia”... e prosseguiu, foi em frente. Entregou-se ao aprisionamento. Suas palavras contam isso.
Priklopil “sabia” que queria mais que dinheiro. Entregou-se ao exercício de “criar” a menina.
Natasha “sabia” que colocava a vida dele em risco. E foi em frente.
Priklopil  respondeu à altura. Matou-se.

(clique para ouvir a melodia)

          A medida da paixão (Lenine)

          “’E como se a gente não soubesse
           Pra que lado foi a vida
           Por que tanta solidão
           E não é a dor que me entristece
           É não ter uma saída
           Nem medida na paixão.”

Forbes nos lembra que há homens que fantasiam “educar a mulher” e que há mulheres que exigem que um homem lhes declare amor com bem mais que “palavras, palavras, palavras.”
São duas formas complementares e irresponsáveis de amor...

Amores. Sempre estranhos.
 Impossível conjugar fora do plural.
 Impossível colocar na regra.
A única regra possível é a que cabe no cativeiro.
Volto a Forbes, que me lembra que Natasha chamava sua prisão de “calabouço” - .calabouço de um castelo...
E o castelo, sabemos por nós mesmos e pelos contos de fadas, é a morada do rei e da rainha, a morada do sonho e do pesadelo. Não há castelo sem calabouço.
Fora do calabouço... a responsabilidade. Pelos amores, inclusive.
E por todos os incômodos, desencontros, desconfortos, por todos os mal-entendidos que os amores portam...

(clique para ouvir a melodia)

Quereres – Caetano Veloso

“Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói
Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou”...
 

Sr. Juiz... e ainda por cima tem as derivações...
Conto-lhe que um dia, frente a um analisando que se via diante da possibilidade de realizar um desejo seu, o de morar em outro país, me dizia:
O problema é minha mulher. Ela tem medo de ir.
E eu lhe disse: ah... sua mulher... veja bem: compre rolos de fita crepe, tesourinha, uma garrafinha de água com canudinho e uma caixa de papelão bem forte. Use a fita para embrulhá-la bem, corte as unhas para ela não romper a fita, deixe um buraquinho para o canudinho, e coloque-a na caixa.

 Leve-a consigo, desde que a deseje e a queira por perto.

 Deixe passar um pouco de tempo lá para depois  abrir a caixa. Não dê ouvidos aos resmungos, aos palavrões, ao choro que “parece” sentido.
Depois... bom, depois é com vocês, e seus amores... estranhos amores.


(Voz: Thiago Bellato de Paiva)