|
A psiquiatria é biológica? Domingueira de 26 de agosto 2007 A pergunta lançada em uma das reuniões de Debates em Psiquiatria - atividade que ocorre mensalmente no Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP – parecia insensata. Provocou espanto e risos no auditório. Dizia-se que o fato da psiquiatria ser biológica baseava-se em evidências comprovadas cientificamente e já incorporadas ao senso comum. O desenvolvimento das neurociências, especialmente da neurofisiologia, da farmacologia e dos métodos de investigação, suas amplas aplicações e repercussões na clínica, seriam a prova cabal desta verdade. A pergunta colocava em xeque as evidências e reabria um debate que sempre existiu: o que é a psiquiatria? Qual é a natureza da psique? E da patologia da psique, a psicopatologia? Na história da disciplina, as respostas foram bem variadas. Para Griesinger, fundador da psiquiatria alemã e que influenciou fortemente Freud “devemos ver sempre nas doenças mentais, antes de mais nada, uma afecção do cérebro”. Para Jaspers, fundador da Psicopatologia Geral, esta ciência seria intrinsecamente dualista, repartida entre as ciências naturais e as ciências do sentido, hermenêuticas. Para T. Sasz, eminente anti-psiquiatra americano, a doença mental seria um mito e a psiquiatria apenas um modo de exercício de poder. Carol Sonnenreich, um dos mais importantes psiquiatras brasileiros, afirma em seu livro As Escolhas do Psiquiatra: Saber e Carisma que “praticamos a psiquiatria e, tanto nas questões gerais quanto nos detalhes encontramos propostas diferentes, pontos de vista divergentes, contradições”. Estas divergências e contradições foram obscurecidas pelo ‘triunfo’ da psiquiatria biológica e pelo ’consenso’ que teria se estabelecido a partir daí. Constituindo-se originariamente como um dos ramos da psiquiatria, a psiquiatria biológica tornou-se uma concepção abrangente da clínica e da pesquisa e, em sua versão mais reducionista, pretende explicar o campo psiquiátrico exclusivamente a partir das propriedades e alterações do sistema nervoso central. Sustenta que os transtornos mentais seriam decorrentes de mudanças funcionais ou estruturais do sistema nervoso. É a concepção hegemônica desde o final do Século XX e goza de grande prestígio entre os clínicos, cientistas, mídia e público leigo. Exclui o sujeito e nega a existência de uma causalidade ou mesmo de uma realidade psíquica. É uma psiquiatria que trata de um cérebro sem psiquismo, dessubjetivado. O sucesso desta psiquiatria (e da biologia como um todo) ultrapassou o campo da clínica e da pesquisa, impregnando profundamente nossa cultura e a visão que o homem tem de si mesmo. Há uma crescente biologização da vida social que se reflete na incorporação dos significantes advindos da biologia à linguagem comum – “estou deprimido”, a “economia tem variações de humor”, “mudou meu nível de serotonina”, “me falta lítio”, enfim, o “homem neuronal de Changeaux” – e na crença de que o desenvolvimento da biologia resolverá o mal estar da civilização. Interesses econômicos poderosos, particularmente das indústrias farmacêuticas, se associam na propagação da ideologia biologicista: haverá remédio para todos os males, inclusive para a normalidade, como mostra o Prof. Valentim Gentil em recente entrevista nas páginas amarelas da Veja. Na contracorrente, incluem-se psiquiatras, psicólogos e neurocientistas não reducionistas, psicanalistas, algumas correntes psicoterapêuticas, cognitivistas não comportamentais, pesquisadores, pensadores. O filósofo J. Searle, por ex, pergunta: “como fenômenos subjetivos e qualitativos poderiam ser causados por processos físicos ordinários tais como descargas neuronais eletroquímicas? Não temos qualquer idéia de como os processos cerebrais, que são fenômenos objetivos publicamente observáveis, poderiam causar algo tão peculiar quanto estados qualitativos de consciência”. É o problema das ‘qualias’: há uma objetividade da subjetividade que não pode ser eliminada. A atividade psíquica – pensamentos, afetos, sensações, desejos, juízos, percepções, linguagem, memória – não é redutível a nenhuma propriedade do neurônio isoladamente, a nenhuma de suas propriedades biológicas. O cérebro, um órgão menor do que uma bola de futebol, possui mais de 100 bilhões de neurônios que estabelecem ligações sinápticas com outros neurônios, variando de algumas centenas a várias dezenas de milhares. A atividade psíquica parece ser uma propriedade emergente - irredutível às propriedades de seus constituintes isolados - derivada do encontro entre este órgão multiconectado e o unwelt humano. O cérebro do parlêtre – um emaranhado de redes neurais - é modelado e atravessado pelo universo simbólico. Longe de ser um órgão semelhante aos demais, o cérebro humano é um aparelho bio-cultural, bio-semântico, bio-significante, bio-gozante e deve ser abordado em sua especificidade e complexidade. Neste sentido, a psiquiatria não pode ser apreendida como ciência biológica strictu sensu a não ser que se perca a dimensão que lhe é própria e que a define ou se amplie enormemente o conceito de biologia. É a proposta de Jacques-Alain Miller, quando introduz sua biologia lacaniana, que leva em conta os efeitos da linguagem sobre o corpo e o gozo. Ou, usando o ternário lacaniano, uma biologia que leva em conta, na abordagem do corpo vivo, os registros simbólico, imaginário e real. Não por coincidência, o tema que vamos debater relaciona-se diretamente à Conferência de Abertura do módulo III do Corpo para a Formação em Psicanálise – que tratou da Sociedade do Sintoma e da Psiquiatria, em sua passagem da magia à evidência – e com todo o seu temário. Relaciona-se diretamente com todos os módulos: A psiquiatria biológica é uma das bússolas do Homem Desbussolado, o tratamento eleito do Mal Estar contemporâneo, o modo de abordagem prevalente da Psicopatologia da Vida Cotidiana. Como psicanalistas, somos tocados visceralmente pela Psiquiatria Biológica. Nosso convidado desta Domingueira é Daniele Riva, neurologista do Hospital Sírio Libanês, ex-professor do Instituto de Psiquiatria do HC, responsável pela formação de algumas gerações de psiquiatras, um dos maiores clínicos e pensadores do Brasil. À época da minha residência médica, era fervoroso defensor da psiquiatria biológica. Como sinal de seu rigor e coragem intelectual, mudou de posição e, hoje em dia, é um dos maiores críticos da epistemologia, clínica e ideologia que estão associadas à psiquiatria biológica. Daniele retorna ao IPLA três anos após protagonizar o evento “Os Erros de Damásio e Sohlms”, quando dissecou o projeto da neuropsicanálise, uma tentativa de redução da psicanálise à neurociência, de biologização da psicanálise. Jorge Forbes, entre outros tantos títulos, é o introdutor da Orientação Lacaniana no Brasil e, na perspectiva da Segunda Clínica de Lacan, um dos primeiros a estudar a incidência da psicanálise no corpo. Autor de livros e de numerosos artigos desenvolve uma série de trabalhos clínicos, de pesquisas e de transmissão, de psicanálise pura e aplicada, em instituições, empresas, mídia, escolas e hospitais. É o fundador da Escola Brasileira de Psicanálise e do IPLA, seu idealizador, presidente e orientador. É um prazer e uma honra coordenar uma mesa da qual participam Daniele Riva e Jorge Forbes, duas pessoas que marcaram e marcam profundamente minha trajetória. Retomo, na Domingueira, a pergunta lançada na reunião do IPq-HC-FMUSP: a psiquiatria é biológica? Ariel Bogochvol |