BILHETE

O médico e a cartomante

 

Convenhamos: olhar a sorte é fascinante. Mata a curiosidade, tira dúvidas, alivia angústias diante do futuro, ou então as provoca, quando a cartomante se vê obrigada a anunciar uma tragédia. -“Tudo isso é bobagem”, defendem os que acreditam apenas nos fatos comprovados pela ciência. No entanto, a ciência quando trata de nossa saúde é capaz de elaborar diagnósticos e prognósticos que deixam o médico na mesma posição da cartomante: devo ou não devo anunciar a tragédia de uma futura doença grave? Eis a questão!


Comparar o médico que exerce a medicina preditiva e a cartomante é menos absurdo do que parece. O suíço François Ansermet, médico, psicanalista e autor do livro A chacun son cerveau, faz essa comparação em sua bem humorada crítica à medicina dos diagnósticos. Para Ansermet cada um é um, sendo prova disso o que as neurociências descobriram: a chamada plasticidade neuronal, segundo a qual experiências iguais se inscrevem no cérebro de cada ser humano de uma maneira diferente e imprevisível. Daí a cada um seu cérebro! Ora, com a descoberta da plasticidade neuronal, as neurociências anunciam velha matéria, o que a psicanálise divulga há mais de 100 anos: nós, seres humanos, não somos só biologicamente determinados. Cabe a cada pessoa sua singularidade. A consciência das palavras, Wortbewusstsein, e o inconsciente, diz Freud em suas Anotações sobre o bloco mágico, nos protegem do impacto das irritações que o mundo nos reserva. Somos seres falantes, parlêtres, insiste Lacan. E, se para a psicanálise nem o inconsciente é destino, que dirá o diagnóstico empirista médico! Há sempre um enigma que resta. Lacan o chama de Real. Em tempos de globalização e da infinitude da experiência humana, cientistas dos mais diversos campos do saber se deparam com esse Real. Nem tudo podemos saber, nem tudo podemos resolver. A psicanálise faz do Real seu campo de atuação e o entende como chance para a invenção do futuro.


Quanto à cartomante, no fundo, ela sabe que o destino está também em nossas mãos, ou, melhor, ainda, nos pés.

Dorothée Rudiger