Jogar fora o tempo jogado fora

Daniela Nathan: Cantora, atriz e compositora, nasceu em 1973 em São Paulo. Aos 6 anos, foi morar com a família no Uruguai, onde teve sua formação musical. Aos 14, começou a fazer aula de canto erudito com Graciela Lasner. Em 1987, ingressou no “Coro Zemer de la Comunidad Israelita Sefaradi Del Uruguay” regido pela maestrina Ana Wajner, com quem desenvolveu um trabalho de intérprete bastante eclético e abrangente até 2001. Em 1997, começou estudos de interpretação na “Escuela Integral de Arte Escénico” dirigida pela atriz Imilce Viñas, com quem trabalhou nas peças “As Bruxas de Salem” de Arthur Miller, “O Burguês Gentilhombre” de Molière. Em setembro de 2003, participou de uma Master Class com a grande diva dos anos 70, Sra. Mary Wilson, ex-integrante do grupo The Supremes. Em dezembro de 2003, retornou ao Brasil. Desde então mora na cidade de São Paulo, onde tem desenvolvido seu trabalho como intérprete e compositora. Clique aqui para conhecer uma de suas produções.

Contato: imeshicado@gmail.com. My Space: www.myspace.com/daninathan

 

Sozinho com Tu: Como você conheceu a Rita Maria?

Daniela Nathan : A gente se conheceu pela internet e foi amor à primeira vista. Eu vim de fora, morei muito tempo no Uruguai e ela me acolheu na casa dela, falou “Vem aí, que São Paulo tem oportunidade pra você trabalhar” e tal... E aí eu vim, a gente se conheceu. “Bateu”, assim, na hora: história de vida, aproximação com a música, como a gente chegou começou a construir carreira...

 

ST: Houve um momento em que você, como artista, teve que fazer uma opção por certo tipo de trabalho. Como foi isso ?

DN: Eu comecei, assim, desde criança. Eu já cantava de 12 a 13 anos porque meu pai é músico. Então, a música já está na minha vida desde sempre. Entrei para um coral, comecei a cantar. A música sempre foi o caminho que eu queria, só que nesse mundo que a gente vive é muito difícil você escolher de cara uma profissão tão alternativa como profissão mesmo, de não fazer mais nada a não ser música. Inclusive, eu fiz faculdade de administração, trabalhei em escritório, tudo o mais. Quando eu terminei mudou tudo, mas a música sempre estava junto. Até que com 24 anos, mais ou menos, há dez anos, eu falei: “Ah não, chega, não dá.” Já tinha feito teatro, estudado canto erudito... Fiz faculdade de teatro e comecei a inverter: deixei de dedicar muitas horas do meu dia ocupada com um emprego e poucas horas para a arte, para a música. Até que aos poucos, cinco anos atrás, me desvinculei totalmente de outro trabalho que não fosse artístico.

 

ST: E como foi esse pulo do gato? Esse basta?

DN: Ah, foi porque eu comecei a ficar muito triste. E muito presa. Sabe essa coisa de horário comercial, de acordar seis horas da manhã e ter uma rotina de todos os dias você ir para um lugar fazer a mesma atividade? Eu percebi que precisava de mais liberdade na vida profissional e na minha vida. Eu precisava ter o controle da minha vida. Só que você tem que assumir os riscos que vêm junto com isso.

 

ST: De que maneira?

DN: Ah, não sei. Foi um processo, na verdade, no meio disso fiz terapia, fiquei mal, tive depressão e tudo o mais. Comecei a fazer terapia com 19 anos, mais ou menos, e tive alta com 29. O psiquiatra, mal da cabeça, me deu alta. Imagine os problemas dele. [brinca] Meus amigos perguntam: “O cara foi internado depois de dar alta?”[ri]. Então, foi um processo de descoberta, descoberta da natureza, descoberta de uma vida alternativa mesmo. E de uma vida mais ligada à verdade espiritual, assim, de relacionamento humano e de relacionamento com a natureza. Com o mundo de verdade e não com o mundo que a mídia construiu e que, de repente, algumas pessoas construíram. Eu não tenho nada contra, mas eu acho que as pessoas escolhem. Isso é a única coisa que eu gostaria de passar pra todas as pessoas do mundo. Não importa qual a área que eles trabalham ou o tipo de vida... Que eles saibam no fundo que eles têm escolha. Se eles estão tendo a vida que eles estão tendo, é porque eles escolheram. Seja o que for, não importa. De repente é um estilo de vida que eu não teria nunca, mas a pessoa não pode ficar sofrendo, é isso que eu acho. Que o ser humano tem escolha sempre. Claro, você tem que ter coragem de escolher e de arcar com as conseqüências. Várias coisas podem acontecer na sua carreira. Eu entrei em depressão, dos 22 aos 25 eu não existia. Foram anos da minha vida que eu fiquei na dor. Na dor mesmo, sem achar um caminho, até que eu falei: “Meu! Mas o caminho que eu acho é um caminho natural, é um caminho de dentro pra fora.” Mas ao mesmo tempo tinha coisa de... “Meu, mas eu moro numa sociedade, não dá. Blá, blá, blá... Como é que eu faço pra escolher esse caminho alternativo?

 

ST: Essa questão do alternativo dentro do alternativo, a gente que está de fora, percebe que vocês têm uma opção diferente de carreira. A Rita Maria falou do independente dentro do independente, como é que é isso?

DN: É delicado do tipo. Ah! Eu acho que é a nossa verdade. Se você vai seguindo sua verdade, você vai construindo um caminho. Independentemente do que está acontecendo na televisão ou nos grandes selos ou... Porque tudo isso é uma coisa muito legal pra você. Claro que se qualquer um de nós tiver essa opção de aparecer na mídia, de estar na televisão, tocar no rádio, ia ser uma coisa super-legal pra nossa carreira. Mas isso não detém a gente. A gente não pára de cantar por causa disso. Porque estar na mídia é uma conseqüência, entendeu? De repente, se eu ficar famosa amanhã, não vou mudar meu caminho. Porque durante dois anos eu vou aparecer na mídia e depois o meu caminho, meu trabalho vai continuar sendo o mesmo. Claro, é muito sacrificado, é muita batalha. Você tem que ter amigos que ajudem: um amigo empresta o computador pra você poder escrever seu projeto, um amigo fotógrafo tira as fotos pra você divulgar seu trabalho... São amigos que divulgam seus shows: você manda email com a data de seu show e seu amigo divulga pra outros amigos e vai. Claro que tendo a internet pra gente hoje, que é artista independente ou fora do mundo comercial, facilita. Há dez, quinze anos atrás, não tinha. Hoje a gente pode lançar um disco pela internet. A gente pode divulgar um trabalho pela internet, a gente pode criar... Hoje em dia, a gente nem precisa de dinheiro pra criar um site. Você pode ter um blog, que é gratuito. Você constrói e pode pôr música lá, pôr seu perfil, sua busca, a história e se aproximar das pessoas e ir caminhando. Eu, a Rita e outros artistas acreditamos na importância da gente estar sempre fazendo algo e acreditando nisso, com o coração. Também tem a responsabilidade de comunicar. Porque a gente, de certa forma, é um comunicador: o que eu estou falando no palco, as letras das músicas que estou cantando, sendo minhas ou não, estão sendo ditas por mim. Quero passar pras pessoas uma mensagem, sabe? Porque a gente que é músico tem uma responsabilidade enorme ao nutrir as almas das pessoas. Bobby McFerrin, um regente maravilhoso que faz um trabalho vocal maravilhoso e de quem eu sou fã incondicional, sempre diz que artista tem uma enorme responsabilidade de alimentar as almas das pessoas. E eu acho que não importa se você é Daniela Nathan, que ninguém conhece ou se você é sei lá, Bobby McFerrin, que o mundo todo conhece. É uma responsabilidade sempre. Mesmo que eu nunca fique conhecida, é a minha responsabilidade. A partir do momento que você faz com responsabilidade, com amor e dedicação, eu acho que não tem erro, entendeu? Tem coisas que eu não canto, tem algumas letras de música que contêm uma mensagem que não condiz com minha personalidade ou com as coisas que acredito. Você se apresentando aqui, num botequinho no centro de São Paulo, ou no Credicard Hall em Nova York, não importa o palco, o importante é que, tendo uma, dez, quinze, duzentas mil pessoas te assistindo, você tem uma responsabilidade.

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