PERFIL


Dani, Andreza e Rita
“Há também aqueles que, suportando esse conflito, pagam o preço da autorização de algo novo. São os criadores, a quem devemos tanto: poetas, escritores, cineastas, cientistas”.
FORBES , 2003, p.5627

Andreza Roberta Rocha decidiu perseguir os modos como, hoje, é possível inscrever a singularidade na cultura. Encantada com uma entrevista que Rita Maria deu à TV Câmara, há tempos desejava saber mais a respeito daquilo que lhe pareceu ser uma belíssima relação que a moça entabulava com o mundo por meio da música.

Atirou no que viu, acertou nisso e, também, no que não viu: entrevistou não uma, mas duas cantoras. Aliás, êta equipe de redação exagerada... Mas foi legal demais! Miss Rocha aprendeu muito a respeito do ato de criar com Rita e Dani. Voltou eufórica, dizendo que “até parecia que as moças tinham lido Lacan”...

A Chefe de Redação estranhou. Perguntou de onde ela tinha tirado isso. Andrezinha, que, segundo as más línguas é capaz até de vender quadro para cego, não se furtou em improvisar uma resposta. Ela disse: se, de acordo com Forbes28, o objetivo de uma psicanálise é “levar a pessoa, em primeiro lugar, a inventar e, em segundo lugar, a sustentar sua invenção no mundo”, é como se as moças fossem um exemplo vivo dos ensinamentos de Lacan.

A gente não entendeu muito bem, não, mas achou bonito. É que, no fundo, no fundo, após ler as duas entrevistas, todo mundo ficou convencido que ela tinha razão. Então, optamos por registrar o comentário em Andrezês mesmo e por convidar o leitor a conhecer essa aventura.

Quer moleza? Senta no pudim! Nunca imaginei que as cantoras tão delicadas que entrevistei no dia 18 de março de 2007 no Centro Cultural São Paulo fossem me lembrar esse bordão.

Reconheço que é exótico, mas essa frase sintetiza o que pude apreender a respeito do ato de criar conversando com a Dani Nathan e com a Rita Maria. Lindas, gentis, fizeram-me perceber o quanto a gente se engana quando acha que a leveza na apresentação de uma bailarina vem da sua delicadeza. Olhar os pés que preenchem a sapatilha nos livra do engano: bota força pra honrar (e se sustentar) na ponta de gesso!

Dani e Rita Maria, artistas do século XXI, mostraram que sustentar um trabalho singular nos tempos atuais é possível, sim. Mas requer a fibra de seguir uma carreira que se firma numa corda bamba. Atenção, respeitável público: corda tecida pelas próprias cantoras que, aqui e ali, vão cavando oportunidades para divulgarem seu trabalho. Vê-las em seu percurso nos anima a ensaiar nossos saltos rumo à “palavra poética, antes descartada como inútil para a condição humana”, mas agora considerada como linguagem do corpo, como Forbes assinala: “na poesia, a palavra não requer vínculo com o racional. Por si mesma, ela marca o corpo. Se assumimos, ganhamos um campo interessante de trabalho” (FORBES, 2005, p. 3729).

As cantoras ensinam no sentido mais ético do termo que, em relação a nossa singularidade, sempre há um preço a pagar: seja o de sustentar aquilo que nos caracteriza e, por isso, botar a mão na massa, criando condições para trilhar um caminho com o nosso jeitão; ou, o de negar, omitir o que nos faz diferentes e, com isso, omitir também a vontade de viver. Isso elas mostram com suas próprias vidas.

Clique nas fotos abaixo e veja as entrevistas dessas duas mulheres que, corajosas, ousam pagar o preço de cantar, de viver sua relação com a música em harmonia com suas convicções.

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