Um exagero de garota fauve

Ao ser incumbida de entrevistar uma pessoa que exagera, pensei : “Fácil, ninguém é mais exagerada no seu modo de viver que Shantall.” Conheço essa garota desde a adolescência. Na primeira vez que a vi, ela estava com o cabelo meio raspado, com tranças amarradas no alto da cabeça, carregando no colo um poodle preto de moicano vermelho.

O temperamento desmedido e exagerado sempre foi sua marca registrada. Na época da escola, após uma discussão com a professora, minha amiga atirou o material da professora pela janela e, em conseqüência, foi mandada para a diretoria. Lá, cometeu um ato falho, e chamou a diretora, Dona Vânia, de Dona Vaca. Ato falho tudo bem, mas Shantall já mostrava a que veio...

Shantall sempre exagerou na sua alimentação. Costumávamos, na adolescência, fazer a festa com o estoque da padaria de seu avô. Até que, recentemente, tomada pelo impulso e sem refletir na sua atitude, foi parar em Curitiba, e lá se submeteu a uma cirurgia no intestino (bypass).9

Paralelamente, se todo mundo conhece alguém que já fugiu de casa, nós, da redação, achamos difícil encontrar outra pessoa, além da Shantall, que já fugiu de casa onde morava sozinha!

Shantall tem cerca de 25 anos e vive de trabalhos ligados a suas grandes paixões: arte, carros antigos e Internet. Ela costuma dizer que é uma pessoa anti-social. Pois bem, eu nunca vi uma criatura anti-social ter tantos amigos. Sua casa sempre tem uma “enxurrada de gente”. Quando não quer, também não há meias medidas: fecha a porta para quem quer que seja.

Seu desprendimento com relação a um cerceador social encantou a equipe de Sozinho com Tu. Sem flertar com a marginalidade, sem traço de álcool ou drogas, ela se mantém à margem do cinzento padrão do homem médio.

Na entrevista, definiu-se como uma garota fauve, isto é, saturada de cores; uma explosão de formas transbordando de energia e vigor. Sua arte, seu trabalho com cores, consegue captar tudo aquilo que foge ao senso comum, inclusive as imagens decompostas da televisão, utilizando uma câmera fotográfica.

Sua paixão com a criação de imagens vai bem longe. Desejando fotografar-se fantasiada de diabo, não hesitou em moldar os chifres vermelhos com Durepox e colá-los na testa com Superbonder, para o meu terror e fascínio.

Inconformada com pessoas que, dóceis, vivem como vaca no pasto, sua insistência volta-se para ações que possam vir a instigar a todos que têm contato com o seu trabalho. Para isso, não poupa esforços em sua pesquisa de elementos composicionais que possam ser utilizados para compor conjuntos insólitos e inusitados.

Infelizmente, nem sempre o outro reage com aplausos ao seu trabalho. A interrogação que sua figura coloca foi respondida por parte de sua família com uma tentativa de classificá-la do ponto de vista do saber médico.

Consultas foram feitas e uma etiqueta nada colorida lhe foi dada na testa: Síndrome de Asperger.10 Nome chique para coagular uma série de traços excessivos, inclusive em sua criatividade.

Ao tomar conhecimento deste “diagnóstico”, lembrei-me de certa vez quando Forbes, durante uma discussão de caso, afirmou que a Psiquiatria pode ser vista como uma rodovia pavimentada, na qual se torna fácil propor um diagnóstico e os possíveis tratamentos. A ela, se contrapõe a Psicanálise, uma estrada sinuosa, na qual a trajetória é construída passo-a-passo, juntamente com o sujeito analisado.

Segundo o autor, a Psiquiatria oferece certo apaziguamento porque oferece ao paciente uma etiqueta que ele assume. Em contrapartida, “Lacan evitou que a psicanálise se transformasse em método tolo de adaptação social, armadilha da qual, infelizmente, alguns pós-freudianos não conseguiram escapar”.11 Assim sendo, na qualidade de psicanalista em formação, entendi que era imperativo que eu não aceitasse rápido demais o “diagnóstico” dado a minha amiga e procurasse olhar o fenômeno-fauve de Shantall de um outro modo: dificuldade de relacionamento ou necessidade de novas formas de se relacionar com o outro? Talvez porque “a globalização, a queda dos ideais e da hierarquia masculina abriram a possibilidade do curto circuito da palavra, para o pior e para o melhor” (FORBES, 2003, p. 2712).

Foi aí que o interesse da equipe de redação se voltou para as correlações existentes entre o exagero e a organização social na hipermodernidade, onde existem os meios para isso. Por esse motivo, nesta matéria, buscamos apresentar o conjunto de elementos que, na atualidade, leva-nos a compreender a necessidade de repensarmos o que é o homem e a própria sociedade.

Para tal fim, tomamos dois adjetivos como palavras-chaves: desbussolado e hipermoderna. Desbussolado é um termo cunhado por Jorge Forbes (2004)13 para designar o homem sem norte e sem uma figura paterna que lhe assegure o rumo a seguir, que vive na sociedade hipermoderna, uma sociedade de superlativos e de limites fluídos ou inexistentes (BAUMAN, 2001)14.

Esclarecemos, portanto, que compreender o homem e a sociedade de acordo com essas características cria a obrigação ética de trabalhar na direção daquilo que Forbes (2005) chama de um novo renascimento,15 ou, retomando o trabalho de Lacan, a instauração de um novo laço social.16 De acordo com essa perspectiva, pode-se dizer, portanto, que os dispositivos técnicos a nossa disposição favorecem o exagero. De fato, Shantall passa 18 horas por dia na Internet.

A equipe de redação, intrigada com este número de horas, em especial, com a resistência de seus olhos e do traseiro, a convocou a falar sobre isso. Leia seu depoimento.

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