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Traduzindo o mundo em sons Rita Maria: Como muitas crianças, Rita Maria iniciou o contato com a música aprendendo a tocar flauta doce. Aos 14 anos, ingressou em um coral escolar e, posteriormente, na Escola de Comunicação e Artes – ECA, na Universidade de São Paulo. Estudou canto lírico na Escola Municipal de Música. Montou vários conjuntos, dentre os quais destaca-se o TRIO GARATUJA, que, segundo ela, deu origem ao seu trabalho atual. Clique aqui para conhecer uma de suas produções. Contato: ritamaria@ritamaria.com.br Site: www.ritamaria.com.br
Sozinho com Tu: Conta pra gente sua relação com a música. Parece que sempre foi diferente, não foi muito comum... Rita Maria: Não sei se diferente. Cada pessoa tem sua história pessoal, né? Então, pra cada um é diferente. Pra mim a música veio desde cedo. Sempre cantei, sempre gostei de tocar, sempre tive muita intimidade com instrumento. Em casa, meus avós, meus tios tocavam... todo mundo canta. A música sempre esteve bastante presente no dia-a-dia mesmo. Então começou ali a relação, mas nunca foi pra mim, até um determinado momento da minha vida, uma coisa de ser um mundo profissional, sempre foi uma forma de expressão, como uma outra expressão minha. Tem o desenho, a literatura, a escrita... Então, a música era mais uma forma de expressão, pra mim, muito criativa. Porque eu tinha uma coisa de escrever música, uma coisa de cantar, de compor.
ST: Conte mais sobre isso. RM: A gente ficava com o som assim, com aquele som na cabeça. Eu gosto muito de escrever, sempre escrevia poesias. Então, uma hora aquilo começou a virar música. Foi natural, eu comecei a tocar piano, tocar violão, ter essa intimidade com instrumento. Acabou que, pra mim, era um escape mesmo, uma forma de expressão. E vinha muito através do canto, de escrever, de compor as coisas que eu gostaria de dizer, que eu gostaria de cantar. E... O som fica ali...
ST: E quando ele fica, fica... RM:[Sorrindo] Fica ali, a gente sonha... Sei lá, você ouve alguma coisa e associa aquele som... Então, quando eu comecei a cantar, com banda, com grupo de amigos, eu já tinha muito essa relação com a composição, com fazer e criar a minha música. Desde 1992 que eu venho escrevendo e procurando essa minha linguagem. Pra mim, tem uma coisa de ser uma busca mesmo, de buscar uma linguagem, uma forma de expressão. Essa coisa da gente ter dificuldade de se relacionar, eu acho que é real. Eu discuto muito isso nesse show, as músicas falam dessa coisa de estar fechado para o mundo, de costas, travado. De você não se comunicar e, ao mesmo tempo, você precisar muito, que música, a gente não faz sozinho.
ST: E a questão de fazer música, mas ser uma coisa independente... RM: Independente, porque é fora do mercado. Eu fui estudar comunicação, fui estudar arquitetura. Não me formei, não consegui me encontrar profissionalmente. E dar aula foi uma coisa que sempre fiz. Dava aula de matemática, dava aula de física, de história e aí, um belo dia, um amigo meu falou: “Nossa, você dá aula, você poderia trabalhar com aula de canto, ser uma cantora profissional se dedicar mais, se profissionalizar.” Porque eu nunca tinha visto na minha expressão uma coisa de ser uma cantora pop: “Ah, vou fazer sucesso!” Nunca tive disso. Muito pela educação que eu recebi. O mundo não é assim. Pra você ser um cantor pop, você precisa conhecer x e y, você tem que estar no lugar certo na hora certa, tem que ter uma grana, uma série de coisas. Claro que você faz uma música, você quer que ela toque no rádio, você quer que as pessoas ouçam. Mas não foi o que me moveu a escrever música. Pra você viver de música você tem várias alternativas: ser um cantor pop de sucesso, que vende milhões, dar aula, ser um cantor da noite, ser um cantor de eventos, fazer projetos...O próprio artista mesmo tem que criar canais alternativos.
ST: E como foi o pulo gato. Agora eu vou ser... RM: Eu já estava compondo e tocando direto, tinha várias bandas, já estava fazendo noite. Assim, tentando expor o trabalho. Sempre com música inédita. Nunca fui cantora de noite, de cantar a música dos outros. Meu começo foi compondo mesmo. E aí chegou uma hora que eu não me via mais na faculdade, não me via mais fazendo arquitetura. Estava em um emprego em que eu não me via mais. E a música estava muito forte. No último ano na faculdade, não sei quantos shows de música independente eu fiz. Sempre acompanhei o mercado independente. Então quando eu comecei a cantar, entrei no coral. Também o trabalho da Ná Ozetti, do Wisnik, do Tati, do Premê, do Rumo, do pessoal da Lira Paulistana, do Arrigo Barnabé... Eram coisas que eram alternativas já na década de oitenta, eram parte da minha formação e eram artistas que não tinham a coisa da grande mídia, expressão nacional... E aquilo me identificava muito. Mais do que essa coisa do mundo pop. Aí, eu falei: “Quer saber? Vou encarar. Vou voltar a estudar numa escola de música, mergulhar de cabeça trancar a faculdade e ver o que acontece.”. Tive amigos que me ajudaram, indicando lugares pra dar aula “Você vai dar aula, você repõe...” Entrei no Coralusp e aí foi muito bom porque num ano, foi em abril que entrei, estava dando aula, estava regendo coral, estava fazendo oficina, estava tendo muitas aulas... Foi ali, com 25 anos, foi 1999, o ano que a coisa rolou e com essa perspectiva de ter alguma coisa que sustente meu trabalho. Eu que tenho que bancar, entendeu? Tenho que trabalhar, trabalhar, trabalhar pra poder acontecer.
ST: E você fala que a questão da parceria, pra quem fez essa opção, é fundamental... RM: Eu acho sim. O meu público, por exemplo, é feito de artistas, de músicos, de pessoas como eu. De cantoras, de cantores, de gente que está aí também na batalha, pessoas que estão se conhecendo também, esses outros artistas. Então, é um público restrito, não é assim uma coisa abrangente, a gente se influencia. Não são pessoas que estão ali, no mercado. Estão com você, compondo, batalhando. Eu acho que de um ano pra cá, de uns dois, três anos a cena tem ficado mais generosa.
ST: O que você acha que está mudando? RM: O artista independente, fora das gravadoras de jabá, está entendendo que os meios não param. Você tem que fazer o seu trabalho aparecer em vários canais de divulgação. Os canais são outros, até por causa da internet, do boca a boca, dos micro-núcleos... Não preciso vender um milhão. Se eu vender duas, três, sete mil, já sustenta meu trabalho. Não é “Ah vou ser pop... Vou...” Não é isso. Se isso acontecer e o show se pagar, claro que é maravilhoso. Mas não vou fazer trabalho para que ele se pague. Vou fazer um trabalho para que ele tenha êxito. Íntegro eticamente. É assim que vou trabalhar, para que ele aconteça. Como você trabalha para expor um quadro. Com a diferença de que o pintor, ele fica muitas vezes naquela coisa da criação. O músico é diferente. Acho que o compositor pode até passar por um período em que tem que estudar, que crescer. Mas tem uma hora que é no grupo. E sem o grupo isso não acontece. E aí, se eu for pagar o que o mercado pede, inviabiliza um trabalho. As pessoas estão entendendo que a música está criando, novos canais. Você pode tanto tocar como um artista, o que te propicia um cachê super maravilhoso, como cantar e ter um espaço e expressão. Eu construo meu trabalho para que as pessoas possam ter uma forma de expressão. |