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VAI ENCARAR? Percursos e percalços na formação do psicanalista
Leitor amigo, temos quase certeza de que você rirá quando souber de onde surgiu a idéia que deu origem a esta reportagem. Então, não poderíamos deixar de dividir uma historieta bastante prosaica com você. Ocorre que, no final de março, minutos antes de nossa Chefe de Redação entrar em uma fila de vacinação para gripe (procedimento habitual em seu local de trabalho), fizeram-lhe recordar de seu receio de tomar injeção por meio de um provocativo “Vai encarar?” Ruminar um desaforo parecia ser a solução “natural”, mas, ao invés disso, ela julgou que a única resposta possível a ser dada para o insolente era – após ter se protegido contra a gripe – iniciar o texto que conclui essa revista... Nós rimos muito disso. Como assim, responder a uma provocação com um texto, já que aquele seu colega nem estava incluído no rol dos potenciais primeiros leitores? Pensamos que ela pretendia levar-lhe o texto, mas o seco “nem morta” dissipou nossa ilusão. A princípio, deixamos barato; vai entender os desígnios do coração de uma mulher... Depois, insistimos. Certeza nós não temos, mas desconfiamos que, sem perceber, no momento em que recebia a agulhada, Claudia Riolfi deve ter pensado que existe uma diferença sutil entre ficar paralisado de temor e, mãos dadas com o medo, fazer o que decidiu fazer. Ela jura que também não sabe. Nem dá bola pra nossa pergunta, e, pra terminar de provocar, fica cantando Lulu Santos: “Nós somos medo e desejo/ Somos feitos de silêncio e som/ Tem tanta coisa que eu nem sei dizer...” 30 O enigma atual da equipe de redação é saber se o “nós” da canção se refere à equipe ou se Claudia está tirando uma com mais alguém que a gente nem sabe. Na dúvida, deixamos quieto e convidamos você a considerar a necessidade de encontrar uma saída para os nossos medos e, na seqüência, ler o ensaio que se segue. Caminhos não há Pode até ser humano, mas se esconder embaixo da cama de papai e mamãe com um amuleto na mão é pragmaticamente impraticável no dia a dia do consultório. Ali, jogo de cintura não é exatamente uma contingência, mas sim, um imperativo irrefutável. A cama de papai e mamãe, no caso, é a teoria e o amuleto a ortodoxia, os mil “isso pode” ou “isso não pode” que fez a ilusão de segurança que, feliz ou infelizmente, já não pode ser convocada no lugar de exemplo a ser seguido. Sabemos que o psicanalista de hoje se autoriza a falar e a fazer muita coisa que, vinte anos atrás, seria inconcebível. Contudo, sabemos que responder a alguém algo como − “Espera um pouco, que vou dar uma olhadinha no Seminário X” - foge largamente do aceitável. Indicia a mais banal falta de vergonha na cara. É de matar. Do mesmo modo, os pós-freudianos certamente ficariam corados caso tivessem a oportunidade de ver certos atos que, hoje em dia, não fazem mais o escândalo de ninguém, como, por exemplo, Jorge Forbes brincando de autorama com a cadeira de rodas onde estava o paciente que havia acabado de entrevistar. Com direito a trilha sonora e tudo.
Observação, decisão e criatividade são mais do que palavras em relação na invenção cotidiana da clínica psicanalítica que, na contemporaneidade, demanda ser re-criada a cada dia. A cada vez que um espécime de homus desbussoladus adentra o consultório. Os princípios, que antes eram eternos, hoje convivem com os parâmetros adquiridos na experiência de nosso cotidiano:32 a música mudou e a orquestra com sua harmonia perdeu o seu lugar .“Pronto à circunstância” ( FORBES, 200333), ao invés de maestro que segue a partitura e procura a harmonia, o analista encarna o desafio de se fazer DJ capaz de se valer de palavras que, zunindo, toquem o corpo daqueles que, cada vez mais freqüentemente, se apresentam como zumbis no mundo hipermoderno. Atento à singularidade do sintoma, o analista do futuro engancha a palavra no corpo, sem buscar um sentido plausível, arriscando sintonias que ressoem no sujeito operando mudanças efetivas. Essa prática pressupõe a coragem de tomar o saber como trampolim para o saber-fazer que se sustenta na sintonia do gozo. Segundo Forbes34 (2003), tal procedimento procura, ao final de uma análise, levar a uma retificação do sujeito com o seu gozo. Uma postura analítica criativa, portanto, implica em levar o sujeito a lidar com o real como constitutivo das escolhas a serem feitas, dos riscos a serem corridos, a não se fazer refém dos Outros e de seus gozos. Tal processo encontra na figura do analista uma espécie de artífice, uma vez que, por meio de sua prática, da palavra justa para cada pessoa, este é capaz de desencadear e de auxiliar num processo capaz de engajar a pessoa em seu desejo (seu, próprio, e não o sugerido pelo Zé da revista) e, conseqüentemente, na vida. O psicanalista fala por meio de ações que tocam o analisando e permitem que ele passe a atuar em outra freqüência. De acordo com a ética que rege o modo de trabalho do IPLA (decorrência, ou a extrapolação lógica do ensinamento de Lacan), não pretendemos fazer uma psicanálise ortopédica, para tampar o que falta no indivíduo, fazendo uma prótese para suas carências. É como se cada analista dissesse para seu analisando: “Olha, falta é que nem bunda, vem de fábrica com todo ser humano, eu tenho a minha, você tem a sua... Quico tenho a ver se o papai era mau com a menininha que nasceu mais escura? O que me importa é o daqui pra frente... E deixa de manha que meu divã não é lugar de ficar fazendo graça. Um dois, três, já! Que que você vai fazer assim que botar o pé no chão e depois que sair desse consultório?” Diferente do que ocorre em psicoterapias, o analista lacaniano não diz àquele que o procura o que deve fazer, mas sim, atua de modo que o analisando encontre no seu pomar as soluções que configuram o seu próprio pulo do gato em relação à angústia. Isso não quer dizer trabalhar sozinho, entretanto. Há que se encontrar modos de solidificar parcerias nas quais está cada um na sua, mas junto com o outro. É isto que o Instituto de Psicanálise Lacaniana – IPLA está tentando (e conseguindo!) fazer na formação do psicanalista. Tendo abdicado de ministrar um curso de formação tradicional, o IPLA nos convoca a fazer parte de um Corpo de Baile. Imaginamos que não se trata de uma metáfora nada opaca, mesmo para quem nunca fez aulas de dança. Para honrar sua presença num corpo de baile, é preciso suar (e muito) a sapatilha para aprender a coadunar o seu corpo com a coreografia que é proposta por quem está organizando o espetáculo. Então: a) pagar e não ir não adianta nada; b) ir à aula e não se esforçar de verdade não produz efeitos; e c) ficar parada enquanto os outros dançam consiste em um “mico” quase insuportável. A única solução possível? Construir, rapidinho, o seu jeito de dançar. Sozinho, e com os pares. Não pense o leitor, entretanto, que se trata de um percurso sem percalços. Dançar é bom demais, mas, Santíssima! Pensando bem, como é difícil... Ficou interessado em saber mais a este respeito? Então, clique na foto de Andreza e se delicie com o seu depoimento sobre a sua iniciação na formação em psicanálise. |